O ensaio de Roberto Brant joga luz sobre um fenômeno recorrente na política brasileira: o discurso moral elevado a programa de governo. Há momentos em que a invocação da decência pública mobiliza votos e expectativas legítimas — sobretudo quando a administração anterior deixa sinais claros de tolerância com irregularidades. Mas Brant avisa que, quando o moralismo vira rótulo fácil, sem compromisso consistente com práticas transparentes e instituições fortes, a retórica logo se revela insuficiente e, por vezes, hipócrita.
O autor retoma casos emblemáticos do século XX e do período mais recente para ilustrar o padrão. Cita Jânio Quadros, cuja campanha simbolizada pela vassoura prometia varrer a corrupção e que, depois, teve a própria reputação manchada por relatos e controvérsias sobre sua conduta. Lembra também o caso de Fernando Collor, que chegou ao poder com o slogan de combate aos privilégios e acabou removido por acusações de corrupção. Ao tratar esses episódios, Brant não apenas evoca episódios de caráter duvidoso, mas chama atenção para o efeito política — a erosão da confiança pública e a facilidade com que expectativas morais se transformam em decepção.
O apelo à moralidade tem sido arma retórica e, por vezes, máscara que oculta práticas contraditórias.
A narrativa ganha recorte ao abordar o comportamento dos partidos. Brant destaca que a prática da denúncia moral por oposição pode funcionar como arma política — legítima quando baseada em fatos, mas injusta quando seletiva ou instrumentalizada. O Partido dos Trabalhadores, por exemplo, é apontado como rigoroso no combate retórico à corrupção na oposição, mas também como objeto de críticas quando assumiu o Executivo e passou a conviver com escândalos. O ponto central do colunista é claro: a moralização performática produz um efeito corrosivo se não vier acompanhada de reformas institucionais e de políticas públicas que reduzam incentivos à captura e ao abuso.
As consequências são concretas e políticas. Discursos morais vazios ajudam a instalar um ciclo de desconfiança que prejudica a governabilidade: governos passam a ser medidos mais por purismos retóricos do que por desempenho em saúde, segurança, educação e responsabilidade fiscal. A abordagem de Brant sugere que o eleitorado, ao repetidamente observar contradições, tende a se tornar cínico — um terreno fértil tanto para populismos quanto para a estagnação das reformas necessárias. No plano institucional, a instrumentalização da moralidade fragiliza mecanismos de responsabilização, tornando-os objeto de disputa partidária em vez de instrumentos de manutenção do interesse público.
A leitura que emerge é, portanto, dupla: é legítimo colocar a ética no centro do debate público; é também imprescindível que ela venha traduzida em normas, transparência, fiscalização independente e consequências reais. Sem isso, o moralismo permanece espetáculo e a democracia paga o preço — em tempo político perdido, em perda de foco sobre reformas essenciais e na deterioração da autoridade das instituições. Brant conclui que recuperar a república exige, ao mesmo tempo, rigor moral e prudência institucional: decência com eficácia, e não moralidade como fachada.
Quando a moral vira espetáculo, a governabilidade e a confiança pública acabam pagando o preço.