Morreu na terça-feira (16), aos 82 anos, em Indaiatuba (SP), Josias Nunes de Oliveira, ex-motorista da Viação Cometa que durante décadas carregou a acusação de ter provocado o acidente que tirou a vida do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 22 de agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra. Absolvido pela Justiça Criminal em 1978, Josias nunca conseguiu se livrar do estigma público que marcou sua vida pessoal e profissional.

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) lamentou a morte e afirmou que Josias foi vítima de uma das maiores injustiças da história recente do país. No mês passado, a CEMDP concluiu que a colisão traseira que sustentou a versão oficial jamais ocorreu e que o acidente que vitimou JK decorreu de ação deliberada do Estado ditatorial. A conclusão da comissão põe em xeque narrativas consolidadas durante a ditadura e reforça a necessidade de revisitar responsabilidades institucionais.

Josias relatou publicamente o impacto da acusação: disse ter ouvido repetidas vezes que era 'o homem que matou Juscelino' e lembrou de uma tentativa de compra de silêncio, quando lhe ofereceram dinheiro para admitir culpa — proposta que, segundo ele, recusou. A CEMDP informou que preparava medidas formais de pedido de desculpas e um ato de desagravo, compromisso que permanece mesmo com o falecimento do ex-motorista. A morte, segundo a comissão, aumenta o caráter trágico da demora em reconhecer e reparar danos.

Além do desagravo simbólico, o caso tem implicações políticas e institucionais: a revisão oficial da versão dos fatos expõe omissões da Justiça e do aparato estatal durante e após a ditadura, e reacende demandas por esclarecimento e responsabilidades. A ausência de Josias no momento da reparação pública transforma o gesto em correção tardia, sublinhando o custo humano de décadas de silêncio, censura e versões contestadas — e a urgência de medidas que atinjam não apenas a memória, mas a responsabilização institucional.