O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu manter a tramitação da proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da escala 6x1, reafirmando nesta quarta-feira (15/3) o cronograma definido pela Mesa Diretora. A escolha por uma PEC, em vez do caminho legislativo defendido pelo Executivo por meio de projeto de lei, cristaliza um impasse institucional: enquanto o governo busca uma via mais célere e menos onerosa do ponto de vista formal, a Câmara privilegia uma mudança com alcance e formalidade maiores.

Motta justificou a preferência pela emenda pela necessidade de um debate mais amplo e estruturado, e minimizou o impacto político do envio do projeto de lei pelo Planalto. Na prática, no entanto, a opção por PEC aumenta a complexidade do processo e amplia o universo de discussão — algo que tem efeito direto sobre prazos e sobre a capacidade de costurar regras de transição. A Comissão de Constituição e Justiça chegou a suspender a análise após pedido de vista da oposição, recuo que dá tempo ao debate técnico, mas também adia respostas práticas e preserva a pauta no centro do embate entre Legislativo e Executivo.

Especialistas ouvidos no debate público presentes no material-base apontam a mesma tensão: a pressa política contrasta com a necessidade de avaliar impactos setoriais. A advogada trabalhista Elisa Alonso alerta para a fragilidade de uma tramitação apressada, citando riscos para comércio, saúde e indústria se faltarem regras claras de transição. Débora Cursine, especialista em direito empresarial e do trabalho, ressalta que a implementação em atividades com funcionamento contínuo é o principal nó técnico — custos poderão ser deslocados, e sem segurança jurídica a medida tende a gerar controvérsias judiciais e negociação intensa com empregadores.

Do ponto de vista político, a disputa é significativa. A insistência na PEC dá ao Congresso protagonismo e cria um dilema para o governo: acompanhar o rito constitucional e preservar capital político, ou ampliar o confronto institucional ao tentar forçar a via do projeto de lei. Para a opinião pública, o tema tem alta capacidade de mobilização social, o que pode pressionar parlamentares às vésperas de 2026. A combinação de apelo popular e exigência técnica recomenda cautela: avançar sem transição e sem mitigação de custos pode transformar uma bandeira social em fonte de desgaste e litígio.