As convenções partidárias que formalizaram as candidaturas à Presidência entre 20 de julho e 5 de agosto consolidaram um quadro evidente: nas chapas que lideram as pesquisas não há mulheres na cabeça de chapa e quase não existem representantes das maiores parcelas raciais do país. O Censo Demográfico de 2022, do IBGE, registra 45,3% de brasileiros que se declaram pardos e 10,2% que se declaram pretos — mais da metade da população —, enquanto os brancos somam 43,5%. No entanto, entre os nomes mais bem colocados nas intenções de voto, predominam políticos que constam como brancos no registro do TSE; a única chapa competitiva com um integrante declarado pardo é a de Romeu Zema com Eduardo Girão como vice. Candidaturas como a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com Geraldo Alckmin, e as de Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar mantêm autodeclarações brancas.

O contraste entre composição partidária e demografia nacional não é apenas simbólico: tem consequências práticas no cenário eleitoral. A ausência de mulheres e de pessoas negras nas posições de maior visibilidade limita a capacidade das campanhas de falar com parcelas amplas do eleitorado que se veem sub-representadas — um problema que pode traduzir-se em menor engajamento, além de abrir espaço para narrativas de exclusão exploradas por adversários. Ao mesmo tempo, a presença de candidaturas mais diversas concentrada entre opções com menos de 1% nas pesquisas — como as chapas do PSTU e da Unidade Popular, que apresentam candidatos negros e femininos — indica que a diversidade existe no espectro político, mas ainda não converte em força eleitoral relevante.

Há razões estruturais para esse desalinhamento. A seleção de candidatos nas legendas, alianças estratégicas, distribuição de tempo de TV e recursos de campanha tendem a favorecer nomes já consolidados nas máquinas partidárias, que historicamente são homens brancos. Além disso, barreiras de acesso a redes de financiamento e visibilidade ampliam a dificuldade de transformação do recorte demográfico em representação competitiva. O resultado é um sistema que reproduz, nas chapas majoritárias, o perfil dos que já detêm poder interno nas legendas, em vez de refletir o país que essas mesmas siglas dizem representar.

Politicamente, o cenário acende um alerta para 2026: tanto o governo quanto a oposição enfrentam o risco de ver questionada a legitimidade de suas coalizões se não conseguirem traduzir diversidade em presença real. A dispersão das candidaturas que incorporam mulheres e negros também abre uma possibilidade por dois caminhos: pressiona partidos maiores a reverem escolhas e ampliar coligações, ou consolida uma lacuna que pode favorecer a apatia ou o voto de protesto entre setores da população. Em resumo, a falta de representatividade nas chapas competitivas não é apenas uma falha de imagem — é um desafio estratégico com potencial de influenciar o resultado e o comportamento eleitoral.