As urnas estaduais registram um contraste nítido: embora as mulheres componham a maioria do eleitorado — 52,81% dos eleitores aptos segundo dados do TSE — elas somam apenas 25 candidaturas entre 150 nomes levantados pelo Correio, o que representa 16,7% do total. Os homens são 125 postulantes (83,3%). A diferença entre presença nas estatísticas eleitorais e presença nas chapas que disputam os palácios estaduais expõe uma falha de representação que tem consequências políticas e institucionais.
A assimetria se agrava pelas vazias eleitorais em nove estados — Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Rondônia e Roraima — onde a disputa pelo governo ocorrerá exclusivamente entre homens, segundo o recorte do levantamento. Em nível nacional, o percentual feminino entre todas as candidaturas registradas no TSE em agosto era de 34,85% (7.165 de 20.560 inscrições), índice que já era insuficiente, mas ainda bem superior ao observado nas disputas estaduais analisadas aqui.
A concentração das candidaturas femininas em poucos partidos também chama atenção e indica fragilidade estrutural: a Unidade Popular (UP) responde por 11 das 25 mulheres postulantes, ou 44% do total identificado. Outros partidos lançaram duas ou uma candidaturas femininas; relevantes legendas do tabuleiro estadual aparecem em maioria com nomes masculinos — no recorte do levantamento, o PT tem 11 candidaturas e todas são masculinas, enquanto Republicanos, PSB e Novo também não têm mulheres entre os nomes detectados.
A explicação, segundo a cientista política Priscila Lapa (UFPE), combina fatores culturais e decisões internas das legendas. A percepção social histórica sobre papéis de gênero e a predominância masculina nos espaços de decisão partidária limitam o estímulo à candidatura feminina. Em vez de resolver o problema no período pré-eleitoral, Lapa defende investimento de longo prazo para formar quadros e dar suporte real à entrada das mulheres na política — sugestão que aponta responsabilidade direta das agremiações.
O quadro atual acende alerta para partidos e para a agenda de representação: a sub-representação feminina nas disputas pelos governos estaduais não é apenas simbólica. Ela influencia prioridades de políticas públicas, reforça desigualdades e pode corroer a percepção de legitimidade do sistema político perante uma maioria do eleitorado que não se vê adequadamente representada. Para mudar o cenário será preciso mais do que metas declaradas: exige-se redistribuição de recursos, abertura nas instâncias de decisão e programas contínuos de formação e incentivo às candidaturas femininas.