O ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, foi sorteado para relatar a notícia-crime apresentada pelo senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Protocolada em 4 de junho, a petição pede a abertura de inquérito para apurar suposta ameaça e incitação ao crime em discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Catalão (GO).

Na peça, os advogados consideram crime o trecho em que Lula cita o enforcamento associado a traidores da pátria e usa essa referência para criticar pedidos de intervenção externa. O documento também aponta erro histórico do presidente — que teria invertido personagens da narrativa sobre a Inconfidência — e relata milhares de postagens subsequentes identificadas como ameaças explícitas e veladas contra Flávio e familiares, com alcance expressivo nas redes.

O sorteio ocorre em um momento sensível: neste mês Nunes Marques tomou decisão monocrática no Tribunal Superior Eleitoral, do qual é presidente, suspendendo pesquisa da AtlasIntel que mostrava queda na intenção de voto do senador. O precedente judicial recente alimenta, na avaliação de analistas, questionamentos sobre percepção de imparcialidade quando o mesmo ministro passa a relatar uma ação envolvendo o beneficiado por decisão anterior.

Politicamente, o caso amplia o foco sobre riscos de judicialização de disputas eleitorais e sobre a resposta do STF a alegações de discurso perigoso. Para o governo e para a oposição, o rito no Supremo será um termômetro: a notícia-crime dá início a apurações, mas não prevê desfecho automático. O sorteio de relator com histórico de decisões favoráveis ao autor do pedido tende a acender alerta sobre a cena institucional e a ser cobrado por adversários.