Uma reportagem do New York Times publicada em 3 de junho reconstitui os movimentos políticos entre Washington e Brasília em maio e conclui que ainda é incerto se as intervenções anunciadas por Donald Trump vão ajudar ou complicar a candidatura de Flávio Bolsonaro. O jornal destaca que as iniciativas do republicano — combinadas à recente aproximação com o senador — podem ter efeitos ambíguos no tabuleiro eleitoral brasileiro.

O artigo registra que Trump recebeu primeiro o presidente Lula e, dias depois, Flávio Bolsonaro. O encontro curto com o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro foi suficiente, na avaliação do NYT, para reverter parte do trabalho de reconstrução das relações bilaterais que vinha sendo feito pelas duas capitais. Especialistas citados apontam divisão na administração americana entre quem prioriza parceria econômica para conter a influência chinesa e quem valoriza afinidade ideológica.

Na sequência, o governo Trump anunciou que classificará o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas internacionais — medida com vigência em 5 de junho. Professores consultados pela BBC News Brasil, lembrados pelo NYT, colocam um leque de possibilidades, que vai de intervenções militares (consideradas pouco prováveis) a sanções financeiras e medidas contra instituições brasileiras, cenário visto como mais plausível.

O próprio texto nota que as tarifas impostas pelos EUA no ano anterior não impediram desdobramentos políticos desfavoráveis ao clã Bolsonaro e que novas medidas comerciais podem, ao mesmo tempo, favorecer e prejudicar Flávio. Tarifaço ou sanções econômicas têm potencial de gerar custo político direto, ampliar desgaste e complicar a narrativa do candidato, ao passo que ações simbólicas junto à base conservadora americana podem reforçar sua exposição internacional.

Do ponto de vista brasileiro, o episódio reabre perguntas sobre estratégia: a intenção é ajustar prioridades geopolíticas ou instrumentalizar a relação bilateral para ganhos eleitorais? Para Flávio, o risco imediato é político e reputacional — uma intervenção externa com impacto econômico pode cobrar preço nas urnas. Para o governo Lula, o desafio é administrar um relacionamento com Washington que combine interesses comerciais e autonomia diplomática, num momento em que sinais de divisão na própria administração americana dificultam previsões.