Após o resultado das urnas, o senador Flavio Bolsonaro passou a defender publicamente que, eleito, teria no Congresso uma base que permitiria “mudar a Constituição e redemocratizar o país”. O PL saiu das eleições com 28 senadores e 121 deputados — as maiores bancadas de um único partido desde 1988 — e a campanha já listou propostas explícitas que exigiriam emendas constitucionais: redução da maioridade penal para 16 anos, restrição de poderes do Supremo Tribunal Federal (STF) e o fim da reeleição, entre outras ideias reiteradas em ato que formalizou o apoio da federação União Brasil–PP.

Na prática, porém, ter bancadas históricas não basta para alterar a Constituição. Para aprovar PECs são necessários três quintos dos membros de cada Casa — 308 dos 513 deputados e 49 dos 81 senadores — e especialistas ouvidos apontam que o PL ainda precisaria atrair aliados. Beatriz Rey calcula uma bancada bolsonarista de cerca de 44 senadores quando se somam candidatos eleitos com apoio declarado de Flavio; Lucas de Aragão estima que parlamentares de direita podem somar ao redor de 280 votos na Câmara. Esses números aproximam, mas não garantem, o quórum constitucional: será preciso costurar apoio no Centrão e em outras siglas de centro‑direita.

A tensão entre viabilidade legislativa e consequências institucionais é óbvia. Propostas para limitar o STF ou modificar mecanismos fundamentais do sistema de freios e contrapesos tendem a provocar reação do Judiciário, abrir disputas judiciais e mobilizar setores da sociedade e do mercado preocupados com a previsibilidade institucional. Politicamente, aprovar PECs polêmicas exige troca de apoio por cargos, verbas e benefícios locais — o que reforça o papel do Congresso como ator político autônomo e amplia o custo de governabilidade, criando terreno para pressões e rachaduras internas, como observam analistas que avaliam o próximo mandato como de início confortável, mas vulnerável a desgastes.

A proposta de extinguir a reeleição — também encampada pelo candidato — ilustra bem o dilema. Ainda que possua apelo junto a eleitores contrários ao establishment, a mudança altera regras de jogo da classe política e enfrentará resistência de parlamentares com interesses eleitorais imediatos. Além disso, a necessidade de 308 votos na Câmara significa que grande parte das decisões dependerá de barganhas e concessões, com impacto fiscal e administrativo. Em síntese, o tamanho das bancadas do PL amplia a capacidade de iniciativa do futuro presidente, mas não elimina a necessidade de negociação e expõe uma agenda que, se levada adiante, pode transformar a relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário — um cenário que acende alerta para o equilíbrio institucional nas próximas eleições.