A movimentação oposicionista no Senado já tem objetivo definido: retardar a tramitação da PEC 221/2019, que extingue a escala 6x1 e reduz a jornada máxima para 40 horas semanais. A proposta, de autoria do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), teve enorme placar na Câmara (461 a 19) e chegou ao Senado no fim de maio. Depois de semanas sem despacho, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, encaminhou o texto à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em 21 de agosto, com o senador Omar Aziz como relator.

Oposição e representantes do setor produtivo ouvidos pelo Correio veem na união entre governo e Centrão um caminho difícil de contornar para barrar a PEC por via direta. Diante disso, a estratégia mudou: em vez de apostar apenas na derrota da matéria, a tática é ampliar o campo de debate e explorar instrumentos regimentais. Entre as alternativas em estudo estão requerimentos para que a proposta passe também pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e pedidos de vista ou adiamento na CCJ — recursos que podem ganhar semanas ou meses num ano eleitoral.

O relator Omar Aziz sinalizou que pretende apresentar parecer rapidamente e não deve alterar o texto aprovado pela Câmara; se mantido, o projeto pode seguir direto para promulgação após aprovação no Senado. O calendário é, portanto, elemento central: a CCJ deve analisar a proposta durante o esforço concentrado previsto para a próxima semana, antes da agenda do Congresso ficar ainda mais subordinada às eleições de outubro. O governo, por sua vez, tenta transformar a redução da jornada em bandeira de campanha do presidente Lula, que já associou o fim da escala a mais tempo para a família.

As manobras da oposição têm duplo sentido político. Primeiro, buscam proteger setores que operam em regimes contínuos, apontando custos e risco de perda de empregos caso a mudança seja aplicada sem ajustes. Segundo, procuram explorar o calendário eleitoral para forçar o governo a pagar um preço político caso insista em aprovar a PEC às vésperas do pleito. Se a oposição conseguir ampliar o debate técnico ou obter adiamentos, a votação poderá ser postergada além da janela útil que o Planalto tenta aproveitar.