Marcos Nobre, pesquisador da Unicamp e organizador do estudo que cunhou a expressão 'Partido Digital Bolsonarista' (PDB), desenha um diagnóstico duro para a esquerda: nas redes, a direita construiu uma forma de organização política que funciona como legenda —sem CNPJ nem registro formal— com hierarquia, coesão, agenda e capacidade de eleger. Para Nobre, essa arquitetura é parte constitutiva do sucesso eleitoral recente da extrema‑direita, capaz de transformar influenciadores em políticos e de alinhar a atuação digital com bancadas parlamentares tradicionais.

O estudo citado pelo professor aponta elementos concretos dessa vantagem: atuação coordenada nas plataformas, liderança carismática de atores digitais e articulação com partidos estabelecidos, o que garante acesso a recursos e representação institucional. Nikolas Ferreira (PL‑MG) é citado como exemplo de política que emerge desse ecossistema: seu percurso demonstra como a atuação nas redes deixou de ser ferramenta de divulgação para virar núcleo da carreira política. Na prática, Nobre afirma que o PDB já opera como o maior 'partido' no Congresso —uma caracterização que traduz deslocamentos relevantes na governabilidade e na disputa de agendas públicas.

Do outro lado, a esquerda aparece como um arquipélago: iniciativas isoladas, canais com grande alcance —como o grupo de WhatsApp ligado a André Janones, com mais de 5 milhões de inscritos— e figuras oriundas das redes, mas sem uma arquitetura duradoura que reproduza o modelo bolsonarista. Nobre ressalta que a opção pelo chamado 'Exército de Lula' é tática de curtíssimo prazo, suscetível a interrupções (o canal ficou sem atualizações quando Janones foi internado) e difícil de incorporar a partidos estruturados como o PT, que não admitiriam um comando paralelo fora de sua hierarquia.

O diagnóstico tem implicações práticas: o avanço do PDB acende alerta sobre como as campanhas e o trabalho parlamentar podem ser organizados fora das regras clássicas de partido, pressionando por respostas estratégicas da esquerda e por debates sobre regulação, financiamento e transparência no ambiente digital. Para a oposição, a leitura de Nobre indica que não basta replicar ações pontuais; é necessária uma profissionalização da presença online e uma estratégia de médio prazo que combine tecnologia, narrativa e coordenação política. Se nada for feito, a vantagem digital da extrema‑direita tende a complicar a narrativa oficial da centro‑esquerda e a reconfigurar disputas eleitorais futuras.