Um grupo de 24 pastores, em sua maioria filiados à tradição presbiteriana, entregou uma interpelação de interesse público dirigida ao ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, questionando a conveniência e a compatibilidade de sua atuação simultânea como magistrado e como pastor adjunto da Igreja Presbiteriana de Pinheiros (IPP), função que exerce desde 2025. O documento não foi apresentado como um ataque pessoal, mas como exercício de consciência e zelo confessional em defesa da separação entre Igreja e Estado.

Os signatários invocam a Confissão de Fé de Westminster, referência doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil, para argumentar que a sobreposição de papéis — a mão que 'empunha a espada' do Estado e a mão que detém as 'chaves' da Igreja — gera conflito de vocação e risco de confusão entre as esferas. O texto também cita um vídeo em que Mendonça, em meio à crise no STF após episódios relacionados ao caso Master, agradeceu o apoio dos fiéis, episódio usado pelos pastores como evidência de que sua atuação pública e eclesiástica vêm se misturando.

A interpelação formula perguntas objetivas: como o ministro concilia as duas funções à luz da Confissão adotada pela comunidade; como pode ser percebido como árbitro imparcial das liberdades religiosas sendo membro e líder de uma confissão; e de que forma um presbitério poderá exercer disciplina eclesiástica com independência sobre um integrante da Suprema Corte. Essas perguntas expõem contradição entre as exigências confessionais e o exercício da magistratura e, no plano institucional, complicam a narrativa oficial sobre neutralidade do Judiciário.

Mais do que um debate teológico, a iniciativa tem implicações práticas: questiona transparência, potencial conflito de interesses e a percepção pública sobre a imparcialidade do ministro em casos que toquem religião ou atores ligados ao universo evangélico. A interpelação coloca Mendonça na obrigação de responder de forma clara e documentada — não apenas para sua igreja, mas para a cidadania — sobre os limites e compatibilidades de suas funções, sob pena de ampliar desgaste institucional e levantar dúvidas sobre a distância entre foro religioso e foro público.