A tramitação da revisão da jornada 6x1 passou a ser tratada pelos líderes da base como uma prioridade política que precisa ser tocada com cuidado depois das recentes derrotas do governo no Congresso. A rejeição do indicativo para o STF e a derrubada do veto ao projeto da dosimetria das penas aumentaram a preocupação de que mais recuos públicos possam contaminar a agenda trabalhista. Nas conversas reservadas, há consenso de que, em ano eleitoral, ninguém quer aparecer como contrário ao trabalhador — mas isso não garante que o texto chegue ao Senado nas condições propostas pelo Palácio do Planalto.
No centro da disputa está a forma de encaminhamento: PEC ou projeto de lei. A preferência de boa parte da Câmara é pela emenda constitucional, exatamente porque evita o trâmite de sanção presidencial e, portanto, a possibilidade de veto. O presidente da Casa já convocou sessões diárias para acelerar a análise e as propostas começaram a ser debatidas na comissão especial instalada logo antes do feriado. A tendência que emerge na fase inicial é por flexibilizar a proposta original, incluindo a redução efetiva da jornada de 44 para 40 horas semanais e a estipulação de um período de transição para adaptação de empregadores e trabalhadores.
Um elemento que pode complicar a leitura política é a pressão do setor produtivo. Parlamentares alinhados à indústria e ao comércio de serviços trabalham para introduzir no texto mecanismos de compensação, em especial desoneração da folha salarial, ainda que parcial. O governo formalmente resiste a misturar jornadas e renúncias fiscais, mas interlocutores aceitam discutir ajustes para evitar derrotas. Politicamente, qualquer acordo que permita ao presidente reivindicar apoio ao trabalhador tem valor simbólico — ao mesmo tempo em que levanta dúvidas sobre o impacto fiscal e a clareza das mudanças propostas.
A estratégia dos governistas promete ser cautelosa: primeiro avaliar forças na comissão, ajustar votos e só então encaminhar o texto ao plenário, possivelmente no fim do mês. O placar amplo na derrubada do veto à dosimetria (318 votos) é lembrado para dizer que temas trabalhistas têm dinâmica própria e apoio transversal, mas não garante consenso automático sobre a 6x1. O resultado mais provável é um projeto mais flexível do que o original, forjado por trocas e compensações — um caminho que reduz o risco político imediato, mas que também complica a narrativa oficial e aumenta a necessidade de articulação para manter coesão na base e viabilidade fiscal.