O levantamento BTG Pactual/Nexus divulgado ontem confirma um quadro de polarização enrijecida, em que episódios de desgaste tiveram impacto limitado sobre as intenções de voto. No cenário estimulado de primeiro turno, Lula aparece com 42% — mesma pontuação da rodada anterior — e Flávio Bolsonaro sobe ligeiramente de 33% para 34%, movimento ainda dentro da margem de erro. Ronaldo Caiado tem 5%, Renan Santos 4%, Romeu Zema 3% e os demais somam 1%; brancos e nulos chegam a 5% e 3% permanecem indecisos. O levantamento também mapeia a solidez das bancadas: 24% dos eleitores estão no grupo dos “lulistas raiz” e 26% se identificam como “bolsonaristas convictos”, enquanto 20% se mantêm não polarizados — justamente o bloco que tende a definir a disputa.
A simulação de segundo turno segue indicando vantagem, porém estreita, para Lula: 47% a 44% sobre Flávio, praticamente inalterada frente à rodada anterior (49% a 43%). A geografia e a demografia do voto seguem cristalizadas. Lula lidera entre mulheres (55% a 36%), idosos (62% a 33%), eleitores com ensino fundamental (60% a 33%), católicos (53% a 38%), sem religião (58% a 33%) e no Nordeste (61% a 30%), além de dominar nas faixas de menor renda. Flávio tem vantagem entre homens (53% a 39%), evangélicos (60% a 32%), jovens de 16 a 24 anos (52% a 34%), trabalhadores formais e eleitores de renda mais alta, com liderança expressiva no Sul (63% a 33%).
Do ponto de vista político, o levantamento acende um alerta: apesar dos ruídos recentes — o caso que envolve o ex-líder do governo no Senado e a repercussão do episódio envolvendo a ex-primeira-dama —, ambos permaneceram protegidos por bases leais e por um momento em que a atenção pública foi em parte desviada para a Copa do Mundo. A consequência é dupla. Por um lado, o governo e a oposição evitaram efeitos eleitorais imediatos; por outro, a existência de um bloco de 20% de eleitores não polarizados eleva a importância de estratégias de persuasão direcionadas ao centro e à chamada terceira via. Pequenos choques, alterações de narrativa ou desdobramentos institucionais ainda podem redistribuir fatias decisivas do eleitorado.
Em suma, o levantamento não indica eleição decidida, mas reforça uma competição tensa e concentrada: com bases sólidas para ambas as candidaturas, a disputa será definida pela capacidade de converter indecisos e de transferir votos da terceira via. Para o governo, o desafio é evitar novos episódios que ampliem desgaste entre moderados; para o adversário, é preciso ampliar o apelo além dos núcleos cativos, sobretudo nas regiões e faixas demográficas onde ainda patina. A pesquisa é um retrato do momento, não uma sentença, mas já atua como termômetro político — e confirma que qualquer oscilação organizada pode custar caro no segundo turno.