Uma pesquisa encomendada pelo Observatório do Clima ao instituto Ipsos colocou o tema ambiental com peso eleitoral: 91% dos entrevistados dizem que é importante que os candidatos às eleições de 2026 apresentem propostas para enfrentar a crise climática, e 62% consideram o tema “muito importante”. O levantamento, online, ouviu 1.800 brasileiros e incluiu 32 perguntas sobre clima, meio ambiente e comportamento — um retrato de saliência que, nas urnas, tende a transformar preferência em exigência de plano e ação.

Os números elevam a pauta climática do campo técnico para o político. Além da percepção ampla de impactos — 87% associam a mudança climática a secas, enchentes e ondas de calor e 85% dizem sentir efeitos no cotidiano —, a pesquisa registra que 79% apoiariam priorizar o tema mesmo que isso implique custos econômicos. Esse dado é duplo: por um lado, amplia a margem de manobra para propostas de mitigação e adaptação; por outro, coloca no centro do debate a necessidade de traduzir intenção pública em medidas com cronograma, custo e fonte de financiamento, abrindo espaço para disputas sobre responsabilidade fiscal e prioridades do Estado.

No recorte de preocupações ambientais, a mudança climática aparece no topo (35% das menções), à frente de gestão de resíduos (21%) e qualidade do ar (15%). Ao mesmo tempo, o levantamento evidencia lacunas de conhecimento que podem distorcer a avaliação pública: no caso do metano — gás com alta potência de aquecimento — a maioria dos entrevistados atribui as maiores emissões a aterros e queima de combustíveis fósseis, quando o principal emissor no Brasil é a pecuária. Esse descompasso indica que propostas eleitorais precisarão educar e detalhar soluções setoriais, em especial para agricultura e uso da terra.

O balanço apontado pelo Observatório do Clima e por especialistas do setor sinaliza três frentes que qualquer programa governamental terá de enfrentar: cortar emissões ligadas ao desmatamento e à matriz agrícola, construir agenda robusta de adaptação para reduzir vulnerabilidades sociais a eventos extremos, e atuar internacionalmente para cobrar compromissos externos que afetem o país. Para candidatos e para o Executivo em exercício, a pesquisa acende alerta: a pressão por medidas concretas pode ampliar desgaste sobre governos que não apresentem planos factíveis, ao mesmo tempo que oferece à oposição tema de campanha com apelo transversal.

Importante lembrar que pesquisa é retrato momentâneo, não previsão definitiva. Ainda assim, os dados complicam a narrativa oficial que subestima a dimensão do tema e reforçam que o clima terá papel central na disputa de 2026 — não apenas como pauta ambiental, mas como questão econômica, social e institucional. Quem ignorar a exigência por propostas corre o risco de ver diminuir capital político; quem apresentar projetos sem custo/benefício claro abrirá espaço para críticas sobre irresponsabilidade fiscal. Em suma, o eleitor espera não só promessas, mas planos consistentes e viáveis.