Uma pesquisa liderada por Anna Petherick, da Universidade de Oxford, em parceria com a FGV-Ebape, expõe um mecanismo óbvio e perigoso da polarização no Brasil: eleitores imaginam o rival mais radical do que ele é. O trabalho, publicado na revista Nature Communications, ouviu entre 2 mil e 3 mil brasileiros em cinco rodadas entre abril de 2022 e janeiro de 2023 e acompanhou milhares das mesmas pessoas ao longo do período eleitoral para medir mudanças nas percepções e nos sentimentos.
Os números são esclarecedores e evitam conclusões fáceis: bolsonaristas estimavam que 81% dos lulistas apoiavam a legalização do aborto no primeiro trimestre, enquanto o apoio real declarado foi de 46%. Do outro lado, lulistas supuseram que apenas 27% dos bolsonaristas concordavam com cotas para alunos de baixa renda — quando o apoio real girava em torno de 80%. Essas falhas sistemáticas de percepção alimentam o que os autores chamam de polarização afetiva, isto é, o grau de antipatia entre grupos que declaram posições diferentes.
O estudo sugere ainda que esse tipo de distorção não é apenas um dado estatístico: ela tem custo político e social. Maior antipatia reduz espaço para consenso, torna debates menos racionais e eleva a intolerância, dificultando decisões públicas que exigem cooperação ampla. Os autores associam a intensidade do fenômeno ao papel das redes sociais e a características culturais que reforçam a tendência de retratar o outro como moralmente distante. Em cenários extremos, essa dinâmica aparece vinculada a episódios de violência política, um risco que a democracia não pode desconsiderar.
A boa notícia, destacada pela pesquisa, é que a simples correção informativa tem efeito mensurável: quando as percepções são alinhadas à realidade das opiniões do adversário, a hostilidade diminui. Para quem governa, legisla ou faz oposição, o diagnóstico é claro: enfrentar a polarização exige ações práticas de transparência, comunicação pública responsável e estímulo a espaços de diálogo que revelem a diversidade interna de cada campo. Ignorar as distorções percebidas — ou explorá‑las — é apostar no aumento do custo político e social da divisão nacional.