A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana leva um recado direto ao centro do poder: o meio da pirâmide social virou campo de batalha e, no momento, favorece a oposição. Em cenário de segundo turno, Flávio Bolsonaro aparece com 42% ante 40% de Lula — empate técnico, mas relevante por representar a primeira vantagem numérica do senador no histórico da Quaest. A trajetória dos números também chama atenção: a vantagem presidencial que chegou a 10 pontos em dezembro foi se reduzindo até inverter-se. Esse movimento não é neutro; acende alerta sobre a sustentabilidade eleitoral do lulismo fora da base popular.
O material confirma um padrão previsível, porém politicamente perigoso para o governo: a perda de apoio concentra‑se entre os segmentos de renda intermediária e entre os mais escolarizados. Entre quem ganha mais de cinco salários mínimos, a desaprovação atinge 62% (aprov. 35%); na faixa de dois a cinco salários mínimos a desaprovação chega a 57% (aprov. 38%); e entre eleitores com ensino superior a desaprovação também alcança 62% (aprov. 34%). Em contrapartida, a aprovação permanece mais forte entre os de menor renda — até dois salários mínimos — com 57% de avaliação positiva. Esses dados traduzem um deslocamento da classe média que tem implicações diretas para a configuração eleitoral de 2026.
Para interpretar esse deslocamento há duas chaves úteis: por um lado, a leitura cultural de Jessé Souza sobre um ethos de distinção e moralização da política por parte da classe média; por outro, a abordagem empírica de Marcelo Neri, que liga a oscilação desse segmento a ciclos de renda e consumo. A pesquisa identifica, de fato, uma percepção negativa sobre custo de vida e poder de compra — temas que afetam sobretudo a chamada nova classe média, mais exposta ao endividamento e ao aumento de preços de serviços. Esse desencanto econômico converte‑se em vulnerabilidade política e torna o eleitor médio mais permeável a mensagens de oposição.
O resultado é um quadro que complica a narrativa oficial e amplia desgaste no centro eleitoral, exigindo resposta estratégica. Para o governo, a leitura óbvia é a necessidade de recuperar credibilidade na gestão da economia e na comunicação das políticas sociais que podem atingir o eleitor de renda intermediária. Politicamente, o levantamento aumenta a pressão sobre aliados e sobre o próprio arco de sustentação para formular medidas de impacto rápido no poder de compra ou readequar a campanha de narrativa. Para a oposição, os números reforçam a possibilidade de disputa competitiva em 2026. Trata‑se, porém, de um retrato do momento — não de uma sentença definitiva — e que, ao mesmo tempo que acende alertas, indica caminhos claros de reação e risco.