Uma pesquisa do Unicef publicada recentemente revela que o uso de castigo físico como forma de disciplina continua arraigado em lares brasileiros: cerca de metade dos responsáveis admite já ter agredido crianças. O levantamento qualitativo, que ouviu pais, mães, cuidadores e profissionais da rede de proteção em três capitais, mostra a contradição entre crença e prática: 91% consideram o diálogo a melhor forma de educação, mas 62% relatam ter gritado e uma parcela significativa recorreu a agressões físicas ou a objetos.

O estudo também destaca uma escalada preocupante dos registros oficiais: o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, citado pela Unicef, aponta um crescimento de 106,1% nas ocorrências de maus-tratos contra crianças e adolescentes entre 2021 e 2025, totalizando 38.986 registros no último ano, dos quais 59,1% envolveram vítimas de 0 a 9 anos. A própria Unicef ressalta, porém, que esses números correspondem apenas aos casos que chegaram às autoridades e subestimam a dimensão real do problema dentro dos domicílios.

O diagnóstico traz à tona uma falha política e institucional: a Lei nº 13.010/2014, a chamada Lei da Palmada, que formalmente proíbe o castigo físico e prevê medidas como encaminhamento a programas de proteção, orientação e tratamento, não foi suficiente para promover a mudança cultural nem para consolidar mecanismos efetivos de prevenção e atendimento. Especialistas ouvidos pelo estudo apontam que muitos adultos não reconhecem a palmada como violência e que, em momentos de estresse, recorre-se a práticas automáticas de disciplina violenta.

As consequências são múltiplas. No plano social e institucional, a persistência da violência doméstica infantil amplia a demanda por serviços de saúde mental, assistência social e sistemas de proteção, pressionando orçamentos municipais e estaduais. Politicamente, os números acendem alerta para governantes e gestores: a retórica de proteção da infância precisa ser traduzida em programas de prevenção, formação de profissionais, campanhas educativas e fiscalização das medidas previstas no ECA — tudo isso com custos e escolhas orçamentárias que não podem ser adiadas.

A pesquisa traz, portanto, um recado claro aos formuladores de políticas: lei sem aplicação e sem estratégia de mudança cultural resulta em políticas ineficazes. Garantir que a autoridade parental não seja exercida por meio da violência exige investimentos em políticas públicas de base, coordenação entre saúde, educação e assistência social e maior visibilidade às vítimas. Sem isso, o país corre o risco de conviver por mais tempo com um problema que corrói o desenvolvimento infantil e impõe custos humanos e fiscais de longo prazo.