A Polícia Federal encerrou a primeira etapa da Operação Sem Desconto com 48 indiciamentos e enviou ao Supremo Tribunal Federal um relatório de 265 páginas que põe sob suspeita dirigentes do INSS, operadores de entidades associativas e lobistas. No rol dos indiciados estão o ex-presidente do instituto, Alessandro Stefanutto, o ex-diretor de Benefícios André Fidelis, e o ex-procurador-geral do órgão Virgílio de Oliveira Filho — todos presos preventivamente desde o ano passado.
O documento atribui a Stefanutto crimes como corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, e descreve pagamentos sistemáticos vinculados à omissão deliberada na fiscalização de associações. A PF aponta que pagamentos a empresas de fachada e transferências bancárias coincidentes com planilhas do esquema sustentam as suspeitas; segundo a investigação, Virgílio teria recebido pelo menos R$ 6,5 milhões e Fidelis R$ 3,4 milhões entre 2022 e 2024.
A apuração concentra-se na Confederação Nacional de Agricultores Familiares (Conafer) e detectou desvios que chegam a proporções bilionárias: a entidade teria recebido R$ 708 milhões do INSS e, conforme relatado, desviado cerca de 90% desses recursos para empresas de fachada e contas de operadores. O volume total de descontos suspeitos nos benefícios é estimado em até R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.
Também foram indiciados o lobista conhecido como Careca do INSS e o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes; o relatório registra ainda envolvimento de figuras ligadas ao passado do Ministério do Trabalho e Previdência. O material foi protocolado no gabinete do relator, ministro André Mendonça, e seguirá para análise da Procuradoria-Geral da República, que decidirá sobre eventual oferecimento de denúncia.
Além de individualizar supostas condutas ilícitas, a investigação evidencia falhas nos mecanismos de controle sobre descontos em benefícios e acendeu alerta dentro do governo federal sobre a vulnerabilidade do sistema previdenciário. A etapa revelada hoje pode ampliar o custo político para instituições e cobrar respostas administrativas e processuais sobre como evitar que beneficiários sejam novamente lesados.