A Polícia Federal prepara novas fases da Operação Compliance Zero para aprofundar a investigação sobre o esquema que usou títulos podres do Banco Master para operar com o BRB. Delegados apontam que o organograma da organização criminosa ainda não está totalmente mapeado e que é preciso identificar com clareza quem foi o beneficiário principal das operações, quais núcleos atuavam no sistema financeiro, no setor bancário e quais vínculos chegaram ao ambiente da mídia. O objetivo declarado pelos investigadores é recolher documentos e provas que esclareçam o papel de cada agente e a cadeia de decisões que permitiu a diluição dos recursos por meio de contratos aparentemente lícitos.
O núcleo central da apuração, segundo as peças que já foram produzidas, descreve a venda de ativos deteriorados do Master ao BRB como a peça chave do esquema, com objetivo de lucrar e sustentar o estilo de vida dos envolvidos. O plano culminaria na tentativa de compra do Master pelo BRB, anunciada em março de 2025 e barrada pelo Banco Central em setembro do mesmo ano — duas semanas antes, nas peças iniciais, a autoridade monetária decidiu pela liquidação extrajudicial do Master. Investigadores e peritos têm agora a tarefa complexa de demonstrar quando contratos e operações que aparentavam legalidade foram usados para ocultar recursos, lavar dinheiro ou pagar propinas.
Duas colaborações premiadas em andamento — a do empresário Daniel Vorcaro, do Master, e a do advogado apontado como operador jurídico-financeiro, Daniel Lopes Monteiro — são vistas como fontes potenciais de capítulos adicionais da investigação. Há também a delação em preparo do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, preso na Papuda, que pode detalhar decisões internas do banco. As autoridades esperam que esses relatos indiquem laços com agentes públicos e políticos; as menções que já circulam nos autos incluem referências a figuras com conexão ao Centro político, o que amplia o alcance e a sensibilidade institucional do caso.
O enquadramento político é óbvio: se delações confirmarem participação ou conivência de autoridades, haverá consequências eleitorais e institucionais relevantes já para 2026. A situação tende a acender alerta sobre a governança de bancos públicos e a responsabilidade de dirigentes e reguladores. Ao mesmo tempo, há cautela técnica no processo: como ressaltou um integrante do Judiciário em debates públicos recentes, colaborações precisam trazer novidades verificáveis e não podem ser seletivas. Para os investigadores, o desafio prático será transformar depoimentos e indícios em provas robustas de que contratos aparentemente legítimos eram, na prática, mecanismos de lavagem e de pagamento de propinas — tarefa que deve ocupar as próximas fases da operação.