O governo federal repudiou nesta terça-feira a decisão dos Estados Unidos de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, e apontou as justificativas norte-americanas como falsas. Em nota, o Planalto afirmou que a medida integra uma escalada de ações hostis e interpretou a iniciativa como tentativa de influenciar a eleição presidencial marcada para outubro — interpretação que amplia a tensão bilateral num momento sensível para a agenda política interna.

A Casa Branca justificou a revogação alegando demora do Brasil em conceder o agrément ao indicado norte-americano Daniel Perez. Perez foi anunciado pela administração americana em 1º de junho, teve sinal verde na Comissão de Relações Exteriores do Senado e deveria ir a votação no plenário. O governo brasileiro rebate que o pedido de anuência ainda está em análise, que a Convenção de Viena não estabelece prazo para concessão de agrément e que a divulgação prévia do nome por parte dos EUA quebrou a prática de confidencialidade diplomática.

O Planalto também relaciona a medida a retaliações por sua vez motivadas pela negativa brasileira de vistos a dois diplomatas estadounidenses — Riley Barnes e Samuel Samson — que, segundo Brasília, pretendiam acompanhar as eleições com o objetivo de questionar a integridade do sistema eleitoral. A nota recorda ainda que permanecem sanções individuais e cancelamentos de vistos contra autoridades brasileiras, incluindo ministros do Supremo e integrantes do Executivo, assunto que, diz o governo, foi tratado pelo presidente em encontros com autoridades americanas no início do ano.

A disputa expõe um momento de deterioração na relação bilateral e cria custo político para ambos os lados: para o governo brasileiro, complica a narrativa de normalidade nas relações exteriores às vésperas do pleito; para Washington, corre o risco de ser visto como ingerência em processo eleitoral alheio. O Palácio do Planalto reafirmou preferência pelo diálogo e pela negociação, enquanto o Departamento de Estado procurou minimizar o episódio, esclarecendo que a ação não configuraria expulsão da embaixadora.