O governo federal reagiu com dureza à decisão dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas e aproveitou para censurar publicamente membros da família do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em nota oficial, a Secretaria de Comunicação criticou viagens de aliados a Washington em que, segundo o Planalto, se buscou apoio externo para interferir em questões internas do Brasil — atitude considerada inaceitável pela Presidência.

A nota procurou traçar diferenciação técnica entre terrorismo internacional e a violência praticada por facções como PCC e Comando Vermelho, dizendo que o objetivo principal dessas organizações é o lucro por meio do tráfico e outras atividades criminosas, e não motivações ideológicas, políticas ou religiosas típicas do terrorismo internacional. Ao mesmo tempo, o texto defendeu que a segurança pública não pode virar moeda de disputa política nem ser instrumentalizada por quem, na visão do governo, favorece intervenção externa.

O Palácio enfatizou a importância da cooperação internacional no combate ao crime organizado e citou propostas encaminhadas a parceiros, incluindo uma iniciativa ao Departamento de Estado norte-americano para ampliar troca de inteligência, frear lavagem de dinheiro no exterior e controlar o tráfico de armas. Ainda assim, a nota advertiu que medidas unilaterais ou tomadas sem coordenação podem comprometer o fluxo de informações entre forças policiais e gerar efeitos colaterais econômicos, com menção direta a custos comerciais do 'tarifaço' anterior e risco a instrumentos financeiros nacionais.

A mensagem do governo busca dois efeitos simultâneos: reafirmar a autonomia das instituições brasileiras para definir políticas de segurança e constranger politicamente a base do bolsonarismo ao expor contatos com autoridades estrangeiras. Para o Planalto, qualquer iniciativa externa deve ser negociada e integrada às ações domésticas; caso contrário, corre-se o risco de prejudicar investigações, reduzir a eficácia das operações conjuntas e abrir espaço para repercussões econômicas indesejadas. O episódio tende a alimentar debate sobre limites da interlocução externa e aumenta a pressão sobre o entorno político de Bolsonaro.