O Planalto reconhece internamente que o cenário eleitoral mudou e que parte do Centrão tornou-se mais suscetível a migrar em direção a Flávio Bolsonaro caso o segundo turno consagre um confronto entre os herdeiros políticos do bolsonarismo e o campo petista. Diante dessa nova realidade, a campanha do presidente Lula decidiu deslocar o esforço de negociação da cúpula partidária para as bases estaduais: a ideia é explorar dissidências locais e preservar canais com caciques que ainda dialogam com o governo federal, reduzindo o potencial estrago que uma adesão formal das legendas poderia causar.
No radar de interlocução estão nomes com influência sobre bancadas regionais — entre eles, presidentes da Câmara e do Senado que aparecem nas conversas internas como contatos úteis para manter fragmentos do Centrão longe do palanque de Flávio. A avaliação é pragmática: mesmo que dirigentes partidários anunciem alinhamento ao PL, haverá espaço para acordos estaduais e apoios fora das orientações das legendas, o que pode atenuar a magnitude do desembarque. A estratégia, porém, revela um reconhecimento explícito de fragilidade na capacidade do governo de conter a atração exercida pelo desempenho eleitoral do senador do PL.
O episódio envolvendo a visita presidencial ao Piauí e a reação de caciques locais ilustra a sensibilidade da operação. Em razão da influência do presidente em estados como o Piauí — onde obteve 76,8% dos votos válidos no segundo turno de 2022 — declarações feitas em atos podem repercutir e tensionar acordos prévios de neutralidade. Foi essa mistura de política local e mal-estar pessoal que teria contribuído para o desgaste das negociações com dirigentes do Progressistas, cuja postura formal no primeiro turno foi de neutralidade, segundo interlocutores da campanha. O PT, por sua vez, rejeita ter firmado um pacto de não agressão, ainda que o entendimento político tenha orientado entradas discretas no processo.
Na prática, a operação encomendada a Edinho Silva e ao ministro responsável pela articulação institucional busca reduzir o tamanho do desembarque e preservar pontes com caciques partidários. Politicamente, o movimento acende alerta para o Planalto: a perda de partes do Centrão não é apenas um custo eleitoral no curto prazo, mas pode complicar a governabilidade e a margem de manobra do governo em matérias sensíveis no Congresso. Para além do segundo turno, a possibilidade de erosão de apoio entre parlamentares sinaliza a necessidade de ajuste na estratégia política e administrativa, sob risco de encurtar prazos e aumentar o preço político de votações futuras.