O Palácio do Planalto avalia que a crise diplomática com a Argentina provocou desgaste político para Javier Milei em seu próprio terreno e abriu espaço para a redução da tensão bilateral. Interlocutores que acompanham a condução da política externa relatam reação negativa de setores da sociedade argentina às declarações contra o Brasil, o que teria levado auxiliares da Casa Rosada a adotar um tom mais comedido nos bastidores.
Em Brasília, a leitura é pragmática: o custo político do episódio explica a orientação do Itamaraty para não adotar medidas de impacto imediato. O governo convocou o embaixador argentino para consultas e, ao mesmo tempo, manteve o diplomata brasileiro em Brasília, na expectativa de que a permanência do gesto ganhe força se o ambiente realmente começar a arrefecer.
Fontes consultadas frisam que um retorno precipitado do embaixador poderia esvaziar o caráter político da decisão. Por ora, o Planalto prefere monitorar os desdobramentos na Casa Rosada e sinais públicos de moderação — enquanto registra episódios recentes, como as acusações de Milei contra o presidente Lula feitas sem apresentação de provas.
A aposta é transformar o desgaste interno de Milei em margem para normalizar relações institucionais sem renunciar a princípios. Se as declarações se repetirem ou a pressão pública argentina aumentar, porém, a estratégia brasileira terá de ser reavaliada e poderá gerar custo político e diplomático maior.