Integrantes do governo federal interpretam como uma tentativa de ingerência a ofensiva de parlamentares republicanos dos Estados Unidos contra o projeto brasileiro de regulação dos mercados digitais. Na avaliação de interlocutores do Palácio do Planalto, a iniciativa tem por objetivo proteger interesses das grandes empresas de tecnologia norte-americanas em um momento de escalada de tensões entre os dois países.
O episódio ganhou contorno diplomático depois que um grupo de 20 congressistas republicanos, liderado por Adrian Smith (Nebraska) e Jim Jordan (Ohio), enviou carta ao representante de Comércio dos EUA (USTR), Jamieson Greer. No documento, os parlamentares afirmam que a proposta brasileira poderia prejudicar empresas norte-americanas e pedem que a administração adote medidas, inclusive por instrumentos de política comercial, em resposta ao avanço da iniciativa.
Do lado brasileiro, fontes do governo afirmam que a discussão será conduzida com base nas necessidades do país e na defesa da concorrência, independentemente da pressão externa. Interlocutores do Planalto sustentam que as big techs usam seu peso econômico e político para tentar bloquear marcos regulatórios que poderiam servir de referência para outras nações — uma leitura que transforma o caso em questão de soberania regulatória.
A reação dos republicanos eleva o risco de contaminação da pauta comercial às negociações bilaterais e coloca o tema no centro do debate sobre autonomia regulatória. Para Brasília, a disputa sinaliza não apenas uma tentativa de influência externa, mas também um desafio político: avançar na regulação digital sem ceder a pressões que visem preservar posições de mercado, e ao mesmo tempo mitigar impacto diplomático com os EUA.