Em entrevista ao canal da Gazeta do Povo no YouTube em 18/9, o pré-candidato do PSD à Presidência, Ronaldo Caiado, disse ser contrário às apostas conhecidas como bets e descreveu o fenômeno em termos de impacto social — associando-o à deterioração de famílias e à perda de renda para despesas básicas. Como resposta, anunciou a intenção de criar um Ministério da Segurança Pública com atuação direta contra a denominada 'jogatina', usando cooperação entre órgãos federais e tecnologia para detectar e interromper operações clandestinas.
No esqueleto da proposta, segundo o próprio candidato, a nova pasta atuaria em parceria com o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), a Receita Federal, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a Polícia Federal, além de empregar um sistema de inteligência artificial para mapear e coibir jogos ilegais. O posicionamento de Caiado se insere em um movimento mais amplo no plano federal: o presidente Lula e integrantes da CPI das Bets também têm defendido medidas duras, incluindo propostas que vão de maior regulação a vetos mais severos. Politicamente, a iniciativa sinaliza firmeza junto a eleitores conservadores e eleva o tema no debate eleitoral.
Na prática, entretanto, a proposta suscita dúvidas relevantes. A criação de um novo ministério implica custo orçamentário, necessidade de base no Congresso para aprovação e potencial sobreposição de atribuições com pastas já existentes — especialmente Justiça, Segurança e Saúde, quando se trata de tratamento e prevenção. O uso de inteligência artificial traz ganhos potenciais em detecção, mas enfrenta limitações técnicas conhecidas: risco de falsos positivos, dependência de qualidade e compartilhamento de dados entre órgãos, e necessidade de salvaguardas jurídicas e de proteção de privacidade. Há, ainda, o risco de deslocar a atividade para operadores offshore e mercados clandestinos, o que dificultaria fiscalização e cobrança de tributos.
No campo político, a proposta tem dupla face: ao mesmo tempo que pode reforçar a imagem de vencedor de uma pauta de segurança moral — importante junto a eleitores preocupados com a proteção da família —, também abre espaço para críticas sobre paternalismo e expansão administrativa em um discurso que, no campo econômico, costuma defender eficiência e responsabilidade fiscal. Em resumo, a iniciativa de Caiado acende alerta sobre intenção e prioridade política, mas sua tradução em política pública efetiva dependerá de detalhamento técnico, custo fiscal, articulação com o Congresso e garantia de instrumentos jurídicos que controlem poder investigatório e protejam direitos individuais.