A tradição republicana de convidar todos os ex-presidentes para a posse do novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral chocou-se, desta vez, com o contexto político: ao incluir Jair Bolsonaro e Fernando Collor na lista de autoridades, Kassio Nunes Marques produziu efeito oposto ao propósito de pacificação que pretende imprimir à sua gestão no TSE. A presença simbólica de dois ex-presidentes já condenados — Bolsonaro, com pena superior a 27 anos e cumprindo prisão domiciliar, e Collor, alvo de condenações no contexto da Operação Lava-Jato — transforma uma prática protocola r num gesto com forte carga política e potencial de constrangimento institucional.
No Supremo Tribunal Federal, a decisão repercutiu como um cavalo de pau na atuação da Corte durante o processo eleitoral e aprofundou o desconforto entre ministros. Parte do Judiciário enxerga na iniciativa uma sinalização de alinhamento que pode fragilizar a percepção de neutralidade do TSE em momentos em que a Corte é chamada a julgar episódios sensíveis. A eventual presença de Bolsonaro dependeria de autorização do ministro Alexandre de Moraes, relator das ações penais sobre a tentativa de golpe, o que coloca a cerimônia no centro de mais um capítulo da escalada entre o ex-presidente e o magistrado — tensão que marcou as eleições de 2022.
No campo político parlamentar, o convite teve efeito prático imediato: reativou a ofensiva do PL no Congresso. O líder da legenda na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), retomou a mobilização em torno de uma Proposta de Emenda Constitucional com alcance amplo, que prevê anistia para crimes relacionados às invasões de 8 de janeiro — da associação criminosa armada ao golpe de Estado. O movimento recoloca o Parlamento em rota de colisão com o STF e acende alerta sobre a tentativa de transformar condenados por crimes contra a democracia em vítimas políticas, reduzindo o impacto das decisões judiciais.
O gesto de Nunes Marques, indicado ao STF por Bolsonaro em 2020 e visto como tecnicamente conservador e por vezes alinhado a posições do ex-presidente, expõe uma contradição política: a invocação da tradição republicana entra em choque com o momento de polarização e com iniciativas legislativas que podem anular decisões do Judiciário. A soma de desconforto no STF, reação bolsonarista no Congresso e o risco de politização do TSE amplia desgaste institucional e complica a narrativa oficial de convergência entre os Poderes — com consequências práticas para a estabilidade das garantias democráticas e para o próprio funcionamento da Justiça eleitoral.