A disputa política em torno da instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o colapso do Banco Master ganhou nova intensidade no Senado. O senador Eduardo Girão (Novo-CE) formalizou uma notificação extrajudicial ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), exigindo a abertura imediata da comissão. Segundo Girão, o requerimento reúne os requisitos constitucionais — fato determinado, prazo definido e as assinaturas suficientes nas duas Casas — e busca resolver a questão no âmbito do Legislativo, sem depender de outras instâncias.
De um lado, a cobrança é sustentada por mobilização parlamentar: o pedido original, apresentado em 2025, já contava com 34 assinaturas, acima do mínimo exigido na ocasião, e, conforme o senador, a articulação cresceu. Do outro, a Presidência do Senado tem sinalizado cautela. Alcolumbre informou que vai convocar uma reunião de líderes para tratar das representações pendentes, incluindo a do Novo, e estender encaminhamentos a pedidos encaminhados ao Conselho de Ética. A alternativa — a judicialização — está em curso: seis senadores recorreram ao Supremo Tribunal Federal para buscar uma decisão que obrigue a instalação da CPI.
O elemento que alavanca a pressão são os novos documentos obtidos junto à Receita Federal e encaminhados à CPI do Crime Organizado. Segundo esses registros, o banco teria pago ao menos R$ 543 milhões a 91 escritórios de advocacia entre 2022 e 2025, com um salto de R$ 40 milhões em 2022 para mais de R$ 262 milhões em 2025, período em que a instituição já enfrentava investigações e restrições operacionais. Entre os nomes apontados está o escritório Barci de Moraes, com movimentações da ordem de R$ 80 milhões em 22 meses. As reportagens também mencionam repasses a pessoas e escritórios ligados a ex-integrantes de governos e tribunais, e relatórios do Coaf indicam transferências consideradas atípicas, inclusive para empresas de comunicação.
O pano de fundo institucional é grave: o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial da instituição em novembro passado, depois da deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal; as suspeitas de fraudes chegam à casa dos bilhões, conforme apuração inicial. Num cenário desses, a demora em instalar uma CPI traz custos concretos. Parlamentares que pedem a comissão argumentam que o atraso pode comprometer a coleta de provas e permitir o desaparecimento de rastros financeiros. Para a Mesa do Senado, barrar ou protelar a comissão representa risco político — a crítica pública por omissão tende a crescer se novas revelações se acumularem.
Politicamente, o caso cria um dilema para Alcolumbre e para a liderança do Congresso: autorizar a CPI é aceitar que o Senado investigue figuras e relações que podem atingir atores influentes; adiar a instalação expõe a Casa a acusações de intervenção e preferência. A analogia mais óbvia é com outras comissões que, na esteira de vazamentos e indícios, obrigaram o Legislativo a agir para preservar a credibilidade institucional. Em termos práticos, a pressão por transparência e rápida tramitação não é apenas uma disputa de poder — trata-se de uma resposta necessária para resguardar provas e dar uma resposta à opinião pública sobre um dos maiores episódios de turbulência financeira recente.