A Polícia Federal tem encontrado resistência para obter documentos financeiros relacionados à produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. E-mails trocados entre produtores, divulgados após a queda de sigilo nos autos do caso Master, mostram que um dos responsáveis pela empresa americana vinculada ao projeto condicionou a entrega dos arquivos a procedimentos formais nos Estados Unidos.

O produtor Michael Davis, apontado como sócio majoritário da GO UP Entertainment LLC, respondeu a um pedido encaminhado pela produtora brasileira Karina Ferreira da Gama informando que registros societários, contábeis, fiscais e bancários sob jurisdição americana não podem ser repassados sem observância do devido processo legal dos EUA. Na resposta, ele citou orientação de seus advogados e destacou a necessidade de formalização por canais de cooperação jurídica internacional.

O episódio remonta à notificação enviada em agosto pela PF à produtora brasileira, que teve prazo de dez dias para apresentar documentos sobre a obra. Karina repassou o ofício a Davis no início de setembro; a reação do produtor norte-americano deixou explícito que pedidos informais ou entregas voluntárias não seriam considerados suficientes sem uma ordem judicial ou pedido formal, como carta rogatória ou assistência judiciária mútua.

Do ponto de vista da investigação, a posição pública do produtor amplia o desafio operacional da PF: além de atrasar o acesso a dados potencialmente relevantes para rastrear pagamentos e contratos, impõe à investigação a necessidade de acionar vias diplomáticas e judiciais internacionais, que costumam ser mais lentas. Politicamente, a resistência reforça a sensibilidade do caso, já que a produção refere‑se a um ex‑chefe de Estado e tem potencial simbólico na disputa pública.

Especialistas e operadores do direito consultados indicam que a solução passa por formalizar pedidos por meio do Ministério da Justiça e de canais bilaterais com Washington, ou por iniciativas judiciais que obtenham ordens nos EUA. Até que isso ocorra, a apuração fica limitada ao material disponível no Brasil, reduzindo a capacidade da PF de fechar o ciclo de verificação sobre origem e destino de recursos ligados à produção.