O início da propaganda eleitoral no rádio e na televisão abriu oficialmente uma fase mais personalizada da campanha presidencial. Nas primeiras inserções exibidas, as peças já deixaram claras as frentes escolhidas pelos dois principais postulantes: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concentra a ofensiva em episódios que vinculam o senador Flávio Bolsonaro a escândalos e relações bancárias controversas; o candidato do PL responde buscando transformar temas como economia e segurança em carro-chefe da disputa. Os tempos na grade também pesam: Lula teve 5 minutos e 31 segundos, contra 4 minutos e 20 segundos de Flávio, recurso que tende a ser explorado pelas campanhas.
A estratégia petista aposta em desconstruir a versão mais moderada que Flávio tenta vender. Uma das peças coloca no centro o caso do Banco Master e cita imbróglios que acompanham o senador ao longo da carreira — das rachadinhas às ligações com empresários e ex-banqueiros. Outra inserção utiliza adaptação de jingle para lembrar pedidos de dinheiro ligados ao filme Dark Horse, buscando costurar uma narrativa de influência e financiamento questionável. O objetivo é associar a candidatura do PL ao desgaste acumulado em episódios judiciais e de imagem.
Do outro lado, a campanha de Flávio Bolsonaro escolheu economizar espaços para atacar o desempenho econômico do governo e ressaltar a sensação de insegurança, com gravações feitas em comércios para ilustrar endividamento e prejuízo das famílias. Ao mesmo tempo, a peça do PL retoma investigações que atingem Fábio Luís Lula da Silva — o Lulinha — e auxiliares do presidente, e tenta reativar o discurso anticorrupção que mobilizou parte do eleitorado nas eleições anteriores. Há ainda tentativa de colar Lula a símbolos internacionais, citando documentários e empréstimos do BNDES a governos aliados, numa estratégia para desgastar o campo petista ideologicamente.
Politicamente, a troca de acusações desde o primeiro dia indica que a campanha deve manter tom de confronto e personalização, o que pode estreitar o espaço para debates de propostas. A ofensiva cruzada acende alerta sobre a capacidade de ambos os lados de mobilizar o eleitorado indeciso: enquanto o PT busca neutralizar a narrativa de moderação do adversário, o PL tenta recuperar a bandeira anticorrupção e explorar insatisfação econômica. Para o eleitorado moderado, a estratégia polarizadora traz risco de desgaste, ao mesmo tempo em que pressiona instituições e tribunais citados nas peças. Nas próximas semanas, o foco será medir se as acusações produzem desgaste real ou simplesmente mantêm a disputa no campo simbólico.