A interpretação do diretor da Quaest para o resultado do primeiro turno é direta: quem chega à segunda etapa na frente torna-se favorito. Para o instituto, a vitória parcial de Flávio Bolsonaro reflete um processo já desenhado nas últimas semanas e cria um cenário mais complexo para Lula, que terá de adotar uma campanha de segundo turno muito mais estratégica para reverter a vantagem do adversário.

O movimento que fortaleceu o candidato do PL foi, segundo o analista, o efeito do chamado voto útil. Eleitores que até então mantinham opção por nomes como Caiado, Cury, Renan e Zema migraram quando perceberam a inviabilidade dessas candidaturas. Esse fluxo explica a alta de cerca de oito pontos atribuída a Flávio na reta final: um reservatório da direita que acabou escoando para a candidatura mais viável do campo conservador.

A Quaest também aponta mudanças estruturais no eleitorado: a identificação política da direita se tornou mais consolidada em duas décadas, reduzindo o contingente de eleitores sem alinhamento ideológico. Isso implica que, hoje, valores e identidade política pesam mais que o voto estritamente econômico — um elemento que favoreceu a consolidação do voto conservador e complicou a narrativa de recuperação para o campo petista.

O caminho de Lula, na avaliação do instituto, passa por recuperar o eleitorado que foi a outros candidatos — um bloco estimado em 8% — e por reduzir a abstenção, maior entre idosos e nas regiões mais pobres. Debates e uma rearticulação de frente ampla são apontados como instrumentos necessários, mas o desgaste do governo e os escândalos revelados durante a campanha alteraram o ambiente e diminuíram a margem de manobra. Em suma: a pesquisa acende um sinal de alerta para a campanha petista e reforça um cenário em que a vantagem inicial do favorito tende a cobrar efeito estratégico nos próximos dias.

O impacto político é claro: um resultado consolidado da direita eleva a pressão sobre o campo da centro-esquerda para recuperar o eleitor moderado e reconstituir alianças que se desfiguraram no ciclo recente. Para o eleitor e para os atores políticos, o que virá a seguir — debates, mobilização e capacidade de ampliar a base de apoio — decide se a vantagem atual se manterá ou se caberá uma virada inédita no segundo turno.