A retirada parcial do sigilo dos autos da investigação sobre o Banco Master, iniciada entre a noite de quinta (10/9) e sexta (11/9), jogou luz sobre documentos da Polícia Federal que até então estavam restritos. O material revela ligações de negócios e de comunicação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com autoridades, servidores e terceiros, além de movimentações financeiras e propostas contratuais que a PF considera relevantes para as apurações. A divulgação também escancarou uma disputa institucional no Supremo: André Mendonça liberou somente parte dos procedimentos, enquanto Alexandre de Moraes e a Procuradoria-Geral da República pediam abertura total; o presidente da Corte, Edson Fachin, determinou prazo de 24 horas para entrega do restante.
Entre os trechos tornados públicos está um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, para serviços que incluíam atuação jurídica e consultoria estratégica. Outro documento menciona uma proposta de R$ 50 milhões vinculada à Viking Participações, ligada a Vorcaro, que o escritório diz não ter assinado. A PF também detalha contatos de Vorcaro com dois servidores que atuavam na supervisão do Banco Central e investiga se viagens internacionais e pagamentos a integrantes da autarquia foram custeados pelo ex-banqueiro. Defesas consultadas negam irregularidades.
Os autos apontam ainda para trocas de mensagens em um grupo de WhatsApp identificado como 'Master', anotações que sugerem acesso antecipado a informações sobre a operação que resultou na prisão de Vorcaro, em novembro de 2025, e consultas a procedimentos sigilosos do Ministério Público Federal usando credenciais de servidores. Há relatório sobre uma reunião com integrantes do Banco Central no dia da prisão e sobre a detenção ocorrida no Aeroporto de Guarulhos pouco antes de um embarque. Outra frente apura ligação financeira e tratativas envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, com menções a Flávio Bolsonaro e interlocuções de Vorcaro.
A exposição dos documentos lança efeitos políticos imediatos. A presença do nome da mulher de um ministro em contrato milionário e mensagens que indicam troca de informações sensíveis ampliam desgaste e complicam a narrativa institucional do STF. A disputa interna entre ministros sobre transparência e segurança das diligências transforma-se em fator político: pressiona a Corte por maior clareza, abre espaço para críticas de oposição e suscita questionamentos sobre controles internos no Banco Central e órgãos do Ministério Público. Para além do mérito das investigações, o caso passa a medir a capacidade das instituições de conter danos reputacionais sem interferir no andamento das apurações.