Um novo painel do Cetic.br, produzido em parceria com o Comitê Gestor da Internet e o NIC.br, revela mudanças profundas no circuito informativo brasileiro: metade dos usuários de internet declara desconfiar sempre ou na maior parte das vezes das notícias produzidas por veículos jornalísticos, enquanto o consumo migrou de forma decisiva para plataformas digitais. Aplicativos de mensagem aparecem como fonte diária para 60% dos internautas, seguidos por feeds de vídeos curtos (52%) e sites ou aplicativos de vídeo (50%).

A pesquisa também mostra erosão na prática de verificação: apenas 36% dizem checar sempre a veracidade do que recebem em redes e mensagens, 28% fazem isso na maioria das vezes e 14% raramente ou nunca conferem. Especialistas ouvidos pelo estudo apontam que a construção de confiança deixou de se apoiar essencialmente em instituições e passou a privilegiar laços de proximidade e sinais sociais — curtidas, compartilhamentos e repetição — dinamizados por algoritmos que priorizam engajamento em detrimento de conteúdo denso.

O resultado é um ambiente informativo mais fragmentado e vulnerável à circulação de conteúdos sem conferência. Essa combinação — menor checagem e maior dependência de formatos que reforçam afinidades — não é neutra para o debate público: complica a responsabilização de autoridades, dificulta a correção de informações e amplifica riscos de polarização. Para instituições, jornalistas e formuladores de política, os números acendem um alerta sobre a necessidade de estratégias que recuperem critérios de verificação e ampliem o alcance de conteúdo confiável.

Há ainda diferenças geracionais significativas: embora 65% da população se informe diariamente, entre jovens de 16 a 24 anos o índice cai para 46%, enquanto a faixa de 45 a 59 anos registra 79% de consumo diário. O quadro aponta uma desconexão entre formatos tradicionais e novos hábitos — e sugere custo político para atores públicos que não adaptarem linguagem e canais. Em ano eleitoral, a combinação de menor checagem e plataformas dominantes amplia o risco de efeitos rápidos e amplos na formação da opinião pública, exigindo resposta institucional e jornalística mais coordenada e focada em credibilidade.