Na reta final do primeiro turno, cresce a circulação de conteúdos que colocam em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas. A investigação da BBC News Brasil mapeou vídeos, posts, anúncios e mensagens encaminhadas por WhatsApp e identificou que parte dessas publicações chegou a ser patrocinada — inclusive por candidatos e por pessoas ligadas a serviços eleitorais registrados no TSE. Após contato da reportagem, anúncios foram retirados do ar e a Meta anunciou a suspensão temporária da criação e veiculação de impulsionamentos sobre temas sociais, eleições e política no Brasil.
Dois levantamentos independentes ajudam a dimensionar o fenômeno. O Instituto Democracia em Xeque (DX) contabilizou 1,3 mil publicações classificadas como ataques à integridade do processo eleitoral entre 15 de agosto e 20 de setembro, originadas em 873 perfis e somando mais de 514 mil interações. A média diária de posts subiu de 23 para quase 50 no período, e as interações diárias também saltaram — com um pico próximo ao feriado de 7 de setembro. Ainda que representem menos de 1% do material político analisado pelo instituto, essas mensagens têm presença contínua suficiente para manter a suspeita entre parcelas do eleitorado.
A análise da Palver, que monitorou mais de 100 mil mensagens em WhatsApp, X, Instagram e Telegram, aponta que o volume de menções ao tema aumentou, mas a proporção das que explicitamente desconfiavam das urnas oscilou em plataformas diferentes. No WhatsApp, por exemplo, a fatia caiu de 79% para 68%, enquanto no X subiu de 22% para 30%. O CEO da Palver observou também uma mudança de alvo: críticas que antes atacavam o funcionamento das máquinas vêm migrando para desconfiança em relação ao Tribunal Superior Eleitoral e seus ministros.
Os dados já conhecidos sobre a percepção pública reforçam o risco político: pesquisa Genial/Quaest citada pelo Valor Econômico em fevereiro mostrou 43% de desconfiança no sistema, com maioria dos descrentes tendo votado em Jair Bolsonaro em 2022. Jornalisticamente constatado, o uso de anúncios pagos e a persistência da narrativa configuram uma estratégia que pode funcionar como uma "salvaguarda discursiva" — segundo especialistas — acionável em caso de derrota ou decisões judiciais contrárias. A retirada de impulsionamentos pela Meta é reação relevante, mas não neutraliza a difusão orgânica em redes e grupos privados. O resultado é um custo institucional real: desgaste do TSE, erosão da confiança eleitoral e aumento da pressão por medidas de transparência e fiscalização que entram no radar tanto do governo quanto da oposição.