Entraram em vigor as inéditas diretrizes do Tribunal Superior Eleitoral para o uso de inteligência artificial nas eleições — um passo esperado diante do avanço das ferramentas capazes de produzir áudio, vídeo e textos falsos em grande escala. Mas, segundo o consultor de marketing político Marcelo Vitorino, ouvido no programa CB.Poder, as normas têm alcance limitado e deixam lacunas que dificultam a contenção de deepfakes e conteúdos difamatórios na reta final da disputa.
O principal ponto criticado por Vitorino é a natureza restritiva das proibições: elas alcançam partidos e campanhas ao vedar impulsionamento e a publicação de materiais gerados por IA em janelas sensíveis — 72 horas antes e 24 horas depois da votação —, mas não conseguem impedir que terceiros, inclusive eleitores ou atores não identificados, produzam e difundam esses conteúdos. O consultor compara a remoção de material viralizado com uma tarefa praticamente impossível e destaca que, na prática, a regra reduz a capacidade de reação das campanhas em momentos críticos.
A consequência política é direta: uma peça difamatória que circula próximo à eleição pode permanecer no ar e influenciar votos sem que o alvo tenha meios eficazes de resposta imediata pelas plataformas ou por impulsionamento pago. Além disso, Vitorino sinaliza mudança nas rotas da desinformação: se em 2018 o WhatsApp foi central para a guerrilha digital e perdeu força em 2022 após alterações na plataforma, agora é preciso monitorar Instagram, Facebook e redes de formato curto como TikTok e Kwai — canais em que a identificação de conteúdo falso é ainda mais difícil.
Para mitigar danos, o consultor aponta dois vetores: a imprensa profissional e a responsabilidade dos cidadãos. Jornais, rádio e TV seguem sendo referências de validação de informação que o eleitor terá de buscar; ao mesmo tempo, a circulação de boatos depende de pessoas dispostas a crer e compartilhar. Vitorino também lembra que a IA tem usos positivos para a política — da análise automática de entrevistas à interpretação de programas de governo —, ressaltando que a tecnologia não é intrinsecamente maléfica, mas exige regras e capacidade institucional para fiscalização e resposta.