Um relatório técnico de mais de 5 mil páginas, em análise na Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), conclui que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi vítima de um atentado promovido pelo regime militar e não de um acidente na Via Dutra, em 22 de agosto de 1976. A historiadora Maria Cecília Adão, autora do parecer, afirma que não houve colisão prévia com um ônibus — versão oficial então adotada — e aponta uma ação externa que forçou a saída do Opala da pista e sua posterior colisão com uma carreta.
O documento, ao qual a Folha de S.Paulo teve acesso, reabre inconsistências já apontadas por investigações posteriores, entre elas um inquérito civil do Ministério Público Federal (2013–2019) que descartou elementos que sustentassem a colisão com o ônibus e definiu ser “impossível afirmar ou descartar” a hipótese de atentado. Comissões estaduais da Verdade em São Paulo e Minas Gerais também concluíram, em apurações anteriores, que a morte de JK resultou de sabotagem no veículo ou de disparos.
A conclusão da relatora, agora submetida aos demais conselheiros do CEMDP para apreciação, tem implicações políticas e institucionais claras. Se confirmada, amplia o desgaste simbólico sobre versões oficiais remanescentes da ditadura e acende alerta para a necessidade de respostas formais do Estado à família e à sociedade. O relatório pode subsidiar ações de parentes e reforçar demandas por memória e reparação; ao mesmo tempo, reabre um debate público sobre responsabilização histórica de agentes do regime e sobre a produção oficial da verdade sobre eventos políticos traumáticos.
A morte de Juscelino — presidente entre 1956 e 1961, responsável por obras como a construção de Brasília — jamais foi plenamente esclarecida. O parecer de Maria Cecília Adão será apreciado no próximo encontro do CEMDP, sem data marcada. Além de confirmar ou não a tese de atentado, o processo colocará novamente na agenda pública a relação do país com seu passado autoritário e os limites institucionais para a busca de justiça histórica.