Um relatório da Polícia Federal, com sigilo levantado recentemente pelo ministro André Mendonça, descreve como funcionários de confiança de Daniel Vorcaro teriam obtido e utilizado credenciais de servidores para acessar sistemas restritos do Ministério Público Federal. A investigação trata esse episódio como parte de um esquema maior — que combinava obtenção de dados sigilosos, antecipação de decisões e intimidação — para favorecer os interesses do dono do Banco Master.
O documento anexa registros e conversas que, segundo a PF, confirmam consultas feitas com logins de integrantes do MP. Em julho de 2024, uma busca parametrizada pelo CPF de Vorcaro localizou 15 procedimentos relacionados a ele, 11 deles classificados como sigilosos; o acesso, no entanto, ficou registrado em outra unidade do órgão. Mensagens interceptadas mostram operacionais oferecendo-se para ‘puxar’ informações indicadas por Vorcaro e relatando acesso amplo aos sistemas, ainda que reconhecessem incerteza sobre a duração dessa vantagem.
O Ministério Público informou à PF que a servidora cuja credencial foi usada foi vítima de phishing e que medidas foram tomadas para bloquear acessos indevidos. A investigação da PF estima que o mesmo método permitiu intrusões em sistemas da própria PF e até consultas a bases internacionais, como FBI e Interpol. O relatório cuja restrição foi retirada também inclui trocas em que Vorcaro procura apoio de autoridades, além de documentos que vinculam o caso ao enredo de pressões sobre o Banco Central; um dos investigados, Luiz Phillipi Mourão — conhecido como 'Sicário' — suicidou-se após ser preso.
Além do caráter criminal das apurações, o caso acende um alerta institucional: falhas de proteção de credenciais e cooptação por phishing expõem investigações e fragilizam a confiança em órgãos centrais do sistema de Justiça. Há um custo prático — risco de antecipação de decisões e vazamento de estratégias processuais — e um custo político, que exige respostas claras das autoridades responsáveis pela segurança dos sistemas e pela supervisão administrativa. A cena pede reforço imediato de controles, responsabilização e transparência para evitar que atores privados consigam, na prática, contornar o sigilo que protege investigações em curso.