Um relatório produzido pela equipe técnica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concluiu que, no período de 2 a 11 de outubro de 2026, o canal de WhatsApp chamado “Exército do Lula” não reproduziu, entre suas publicações, afirmações identificadas como falsas nos autos do processo. A perícia foi acionada após decisões conflitantes sobre a liberação do canal e a pedido do presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques. Apesar da ausência de replicação de conteúdos falsos examinados, o documento técnico registrou elementos que chamam atenção: foi detectada "atuação coordenada" na disseminação e o uso recorrente de uma linguagem polarizadora.

O laudo técnico distingue, portanto, duas dimensões: a verificação de falsidade factual e a dinâmica de circulação política. Do ponto de vista estritamente factual, não há no recorte analisado material que corresponda às afirmações sob exame nos autos. Em paralelo, a perícia aponta padrão de mobilização — coordenação de postagens e vídeos — e tom que tende a fomentar confronto, descrito como potencialmente contrário ao caráter pacificador do processo eleitoral. Essa separação é importante porque afeta o alcance das medidas possíveis: ausência de falsidade não elimina a preocupação regulatória sobre organização e influência em massa por canais privados.

O episódio também expôs atritos institucionais no TSE. No domingo (11), o corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cuêva, derrubou decisão do presidente da Corte e determinou a reativação do canal. A campanha do candidato Flávio Bolsonaro havia ingressado com ação pedindo a suspensão do canal e a cassação do mandato do deputado André Janones, criador do grupo; o pedido foi protocolado junto à presidência do tribunal em 41 minutos, segundo informou Vilas Bôas Cuêva. Antes disso, o ministro relator pediu informações complementares, sem determinar suspensão. O desencontro entre decisões e a rapidez das petições externas deixam em evidência a pressão política que envolve a supervisão de plataformas privadas.

Na arena política, o resultado técnico tem efeitos ambíguos: por um lado, o relatório tende a blindar, no curto prazo, argumentos que sustentam a reativação do canal por não apontar falsidade; por outro, oferece munição a críticos que invocam a coordenação e a polarização para pedir regras mais claras ou sanções proporcionais. Para o TSE, o desafio é calibrar uma resposta que preserve liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, proteja a regularidade do processo eleitoral diante de mobilizações organizadas em aplicativos privados. O caso reforça a necessidade de critérios uniformes dentro da corte e acende alerta sobre como fiscalizar, com técnica e previsibilidade, campanhas digitais na campanha de 2026.