Renan Santos, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL) e candidato do partido Missão à Presidência, escolheu um palco carregado de simbolismo para o primeiro ato de sua campanha: a área em frente à Faculdade de Direito da USP, no coração de São Paulo. A decisão tem viés estratégico — produzir visibilidade nacional —, mas traz contradição política: o local é histórico reduto da esquerda e recentemente foi cenário de protestos que pediam punições mais severas pelos episódios do 8 de Janeiro. O candidato condenou o vandalismo, mas afirmou que as penas aplicadas estão em excesso.
Na véspera do evento, Renan apresentou o 'Livro Amarelo', documento de 14 capítulos que prioriza reorganização do Estado, ajuste fiscal, segurança e produtividade. Entre as propostas que mais chamam atenção estão a chamada 'desfavelização', vinculada a obras de urbanização e segurança; a construção de grandes unidades prisionais para isolar líderes criminosos; e a proposta de reduzir o número de municípios de 5.570 para 1.656, por meio de uma 'grande consolidação municipal'. O plano cita ainda zonas econômicas especiais no Nordeste e medidas como o 'SUS Fila Zero' para priorização por gravidade clínica.
Algumas referências no documento são politicamente sensíveis: o exemplo do 'Centro de Confinamento do Terrorismo' em El Salvador — associado ao presidente Nayib Bukele — já é descrito no próprio material como controverso e alvo de alegações de violação de direitos humanos. Propostas que envolvem superpresídios e reformas abruptas do pacto federativo tendem a enfrentar resistência não apenas eleitoral, mas também jurídica e administrativa, além de levantar questionamentos sobre custos fiscais e efeitos sociais da reestruturação territorial.
Em termos eleitorais, o gesto público tem tom duplo: busca consolidar imagem de candidato com pauta de 'lei e ordem' e administração enxuta, mas o quadro revelado pela pesquisa Quaest — 4% das intenções de voto, empate técnico com Ronaldo Caiado — indica posicionamento ainda marginal no cenário nacional. Para avançar, a campanha precisará transformar discurso técnico em propostas com viabilidade política e responder ao risco de alienar setores moderados sensíveis a temas como direitos humanos, políticas sociais e autonomia municipal.