O empresário Renan Santos oficializa neste sábado (1º/8), em São Paulo, sua primeira candidatura à Presidência, em evento que a própria legenda montou com aparente formato de espetáculo. Depois de uma convenção virtual, em 20 de julho, o ato presencial do Missão funciona como lançamento de imagem e tentativa de construção de narrativa nacional — mas também chama atenção pelo preço dos ingressos, que podem ultrapassar R$ 7 mil e incluem benefícios como open bar e acesso direto à direção do partido.

A direção do Missão justificou a antecipação e a estrutura do evento por razões de segurança. Segundo o candidato, ele teria recebido ameaças de grupos criminosos, citando organizações do Ceará, além do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). A invocação de risco real traz implicações práticas — custos, logística e escolta — e políticas: cria uma narrativa que pode mobilizar apoio por simpatia, mas também eleva o custo simbólico do ato e alimenta dúvidas sobre a real capacidade de mobilização de rua do projeto.

A chapa traz como vice o tenente-coronel da reserva Aroldo Medina, gaúcho com passagens por disputas estaduais e municipais. O plano de governo, batizado de "O futuro é glorioso" e condensado no chamado "Livro Amarelo", mistura referências que vão de Javier Milei a Getúlio Vargas. A combinação de liberalismo econômico e referências a um estadista autoritário do passado aponta para uma tentativa de agregar públicos distintos — estratégia que pode ampliar alcance, mas corre o risco de soar contraditória diante do eleitorado que busca coerência programática.

Politicamente, o ato é indicativo de duas fragilidades: a dificuldade de traduzir espetáculo em capilaridade eleitoral e o risco de que uma imagem de elitização afaste eleitores de massa. Cobrar valores elevados por ingresso e apostar em formato exclusivo pode fortalecer a base de apoiadores de maior poder aquisitivo, mas limita articulação nas periferias e nos canais tradicionais de mobilização. Para 2026, a candidatura se apresenta como terceira via crítica tanto ao PT quanto ao clã Bolsonaro, mas terá de transformar visibilidade em estrutura política e propostas concretas para não ficar restrita ao protagonismo midiático.