Os ataques ao direito de votar por parte das mulheres reapareceram neste ano em linguagem contemporânea, mas com raízes claras no passado. Desde a Constituinte do início da República, quando figuras como Coelho e Campos e Serzedelo Corrêa resistiram ao sufrágio feminino, circulam argumentos que desqualificam a participação política feminina como imprópria ou perigosa. A retomada dessas narrativas em 2026 — em especial por influenciadores que afirmam que mulheres votam “pior” ou que seguem o marido — não é apenas um episódio isolado: é a repetição de um padrão que procura intimidar e deslegitimar eleitoras.

Acadêmicas ouvidas por esta reportagem destacam que a novidade não está no teor da agressão, mas na persistência. A lógica patriarcal que historicamente tentou manter as mulheres fora dos espaços decisórios manteve-se adaptável: muda a forma, preserva-se o objetivo. Do ponto de vista jurídico, declarações que questionem a legitimidade do voto feminino colidem com a Constituição de 1988 — o sufrágio é universal e a discriminação por sexo é vedada — e têm motivado movimentações para que órgãos como a Procuradoria-Geral da República analisem eventuais implicações penais e constitucionais dessas condutas.

O contexto histórico reforça o peso político do fenômeno. Pesquisadoras lembram que a conquista do voto foi resultado de pressão social e mobilização organizada; não foi uma concessão automática do Estado. Biografias e estudos sobre sufragistas como Almerinda Gama ilustram como a presença feminina na política sempre enfrentou resistência estruturada. Reprovar a participação das mulheres hoje, quando existem mais de 83,8 milhões de eleitoras registradas, equivale a subestimar uma trajetória de luta e a subvalorizar o papel efetivo dessas cidadãs no desenho do mapa eleitoral.

O aspecto eleitoral transforma a retórica em instrumento político. Segundo o TSE, em 2026 as eleitoras somam 83.877.126 e representam mais de 53% do eleitorado; os homens são 74.845.001. Além disso, as mulheres concentram-se em faixas de escolaridade médias e superiores compatíveis com participação informada: 29,28% têm ensino médio completo e 13,08% concluíram a faculdade. Desacreditar publicamente esse bloco tem, portanto, alcance estratégico: pode intimidar, reduzir engajamento ou sinalizar um projeto político que despreza a voz feminina — efeitos que alteram cálculos de campanha e forçam reações institucionais e partidárias.

O recado das pesquisadoras é claro e direto: direitos exigem vigilância constante. A reaparição de discursos que atacam o sufrágio feminino aponta tanto para a força de um movimento antifeminista transnacional quanto para a necessidade de resposta institucional e política imediata. Além do risco jurídico das declarações, existe uma consequência política concreta: a capacidade dessas falas de afastar eleitoras, mobilizar resistência e cobrar preço nas urnas. Em um país em que as mulheres já são maioria do eleitorado, subestimar esse fenômeno é uma falha estratégica que pode custar caro a quem o legitimar ou negligenciar.