A ofensiva do senador Flávio Bolsonaro contra as chamadas “saidinhas” ganhou um contorno de contradição política ao ser lembrado que o mecanismo foi criado pela Lei de Execução Penal sancionada em 1984 por João Figueiredo, último presidente da ditadura militar e avô do influenciador Paulo Figueiredo, aliado próximo do bolsonarismo.
A Lei nº 7.210/1984 estabeleceu regras para o cumprimento de penas e introduziu a saída temporária como instrumento de reintegração social, autorizando, sob requisitos judiciais, períodos em que detentos do regime semiaberto podiam deixar os estabelecimentos prisionais. A sanção ocorreu em julho de 1984, no governo que vigorou entre 1979 e 1985.
A proximidade entre Paulo Figueiredo e o grupo político ligado à família Bolsonaro — o material-base lembra sua atuação nos Estados Unidos, inclusive em defesa de medidas comerciais promovidas por Donald Trump — transforma o tema em questão política, e não apenas penal. Parte do entorno que frequentemente celebra o período autoritário hoje integra a base de discurso que ataca esse mesmo instrumento.
Mesmo com a origem histórica do benefício, Flávio incluiu o combate às saídas temporárias em seu discurso de endurecimento penal. Em 2024, o Congresso aprovou alterações que restringiram a concessão da 'saidinha' para visitas familiares e convívio social, preservando, contudo, a possibilidade de saída para frequência a cursos. A coincidência entre a crítica pública e a relação familiar do criador da lei complica a narrativa governista: expõe uma tensão entre retórica punitiva e a história legislativa do próprio campo político. Politicamente, trata‑se de um elemento que pode ser explorado para questionar consistência e estratégia — um sinal de fragilidade narrativa que exige resposta clara do candidato e de seus aliados.