A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) volta ao centro do debate político ao alertar que temas centrais para o futuro do país permanecem à margem da campanha eleitoral. Segundo a presidenta Francilene Garcia, o apelo das denúncias — como as referentes ao caso Master — tem monopolizado a agenda pública, empurrando para segundo plano discussões técnicas sobre ciência, tecnologia e preparação para riscos sanitários. Para a SBPC, essa omissão impede que o eleitor e os candidatos tratem simultaneamente de integridade institucional e projeto de desenvolvimento.

O problema, explicam especialistas da entidade, não é apenas retórico. A ausência de propostas claras sobre transição energética, aproveitamento de terras raras e fortalecimento da capacidade de processamento dos minerais críticos compromete competitividade industrial e soberania tecnológica. Ao mesmo tempo, deixar de lado lições recentes — da experiência pandêmica às enchentes e secas que evidenciam os efeitos do novo regime climático — reduz a capacidade de formular políticas públicas com orçamento previsível e governança estável, essenciais à ciência e à inovação.

Há também custo político: a falsa dicotomia entre limpar instituições e discutir um projeto de país fragiliza a agenda de longo prazo e amplia desgaste sobre quem tenta promover medidas de Estado. A SBPC lançou o Observatório das Eleições com mais de uma centena de propostas para qualificar o debate, mas enfrenta a dificuldade de inserir pautas técnicas num ambiente dominado por crises e narrativas de curto prazo. Isso complica a estratégia de governos e candidatos que precisam mostrar capacidade de planejar diante de desafios demográficos, ambientais e tecnológicos.

O recado da SBPC é claro e tem implicações práticas para 2026: omitir ciência e planejamento estratégico da campanha é assumir risco econômico e institucional. Se a disputa permanecer focada nas denúncias e em conflitos pessoais, o país perde janela para construir consensos necessários à transição energética, à preparação sanitária e ao aproveitamento de recursos minerais. Caberá aos candidatos responderem às propostas do Observatório e demonstrar, nas propostas e no debate público, que sabem conciliar integridade institucional com projeto de desenvolvimento.