A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) formalizou um convite público aos candidatos a governador para que assumam compromissos claros com Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) na campanha para 2026. A iniciativa integra o Observatório das Eleições 2026 e traz o caderno 'Vozes da Ciência – O Brasil que Queremos', um conjunto de 117 propostas elaboradas pela comunidade científica em sete eixos temáticos. Segundo a entidade, mais de 60 candidatos de diferentes escalões já registraram adesão ao termo de compromisso.

O documento não é apenas uma lista de intenções: propõe que os futuros governantes tratem a ciência como política de Estado, garantam financiamento público previsível e de longo prazo, e incorporem decisões fundamentadas em evidências. Entre as demandas estão também a defesa da autonomia de universidades e institutos públicos, a liberdade de pesquisa e a proteção institucional da democracia e da Constituição de 1988. O Observatório funciona como plataforma pública em que a sociedade pode acompanhar quais nomes aderem às propostas e em que grau pretendem implementá‑las.

Politicamente, o movimento tem efeito duplo. Por um lado, cria um parâmetro técnico que pode enfiar interlocução direta entre cientistas e campanhas, obrigando candidatos a explicitar como pretendem transformar conhecimento em política pública. Por outro, representa instrumento de pressão: ao exigir posicionamento público sobre pontos sensíveis — do financiamento à autonomia acadêmica — a iniciativa tende a expor contradições entre discursos de campanha e práticas administrativas anteriores, especialmente em estados que reduziram recursos para CT&I. Para o eleitor, a assinatura passa a ser um recado sobre prioridade e capacidade de gestão; para os candidatos, é um teste de compromisso com políticas de longo prazo.

Resta, contudo, a pergunta sobre a tradução desses compromissos em resultados concretos. Assinaturas têm valor político, mas não substituem planos orçamentários, metas de execução e mecanismos de governança que preservem autonomia institucional. A SBPC coloca no centro do debate uma agenda técnica e oferece um roteiro para cobrá‑la — a responsabilidade agora é dos candidatos e da sociedade em acompanhar se o compromisso se transformará em política pública efetiva ou ficará no campo retórico da campanha.