O Senado Federal aprovou e deu andamento, nesta semana, a uma série de propostas com elevado impacto fiscal, em manobra que acendeu o alerta no Palácio do Planalto. Apesar de pedidos da equipe econômica para adiar matérias sensíveis às contas públicas, a presidência do Senado atendeu pressões de parlamentares e colocou em votação medidas que aumentam despesas da União, elevando a tensão entre o Executivo e Davi Alcolumbre (União-AP).
A derrota mais contundente do governo ocorreu no plenário, com a aprovação do projeto de renegociação de dívidas do setor agropecuário. A equipe econômica estima impacto da ordem de R$ 140 bilhões ao longo da próxima década. Fontes envolvidas nas negociações disseram que o secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, não conseguiu costurar um acordo com o relator Renan Calheiros (MDB-AL) e que Alcolumbre, pressionado por bancada do setor, optou por levar a matéria adiante. O texto ainda terá de tramitar novamente na Câmara.
Além da pauta rural, comissões do Senado aprovaram benefícios que ampliam gastos na área da saúde: aposentadoria especial para agentes comunitários e de combate às endemias — com impacto estimado em R$ 30 bilhões em dez anos — e aumento do piso de médicos e cirurgiões-dentistas de R$ 3,6 mil para R$ 13,6 mil. Na CCJ, avançou também a proposta de emenda à Constituição que dá autonomia financeira ao Banco Central; a alternativa proposta pelo governo foi rejeitada pelo relator Plínio Valério (PSDB-AM). O líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), conseguiu apenas adiar por uma semana a votação em plenário.
O conjunto de decisões expõe uma contradição política: a base governista evitou confronto direto com categorias sensíveis em ano pré-eleitoral, mas a sucessão de avanços legislativos amplia pressão sobre as contas públicas e complica a narrativa oficial de responsabilidade fiscal. No Planalto cresce a avaliação de que uma reaproximação entre Lula e Alcolumbre é necessária, não só para destravar a agenda prioritária do Executivo, como para reduzir o risco de medidas que elevem despesas sem compensação. As matérias ainda têm etapas legislativas pela frente, mas já deixam sinal claro sobre o custo político e fiscal que o Parlamento está disposto a assumir rumo a 2026.