O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), tem adotado uma estratégia que tensiona a relação com o Palácio do Planalto: freia a tramitação de prioridades do governo e, ao mesmo tempo, libera para votação propostas de forte impacto fiscal. Na semana em que avançaram ao menos três textos sensíveis, o episódio expõe o nó político entre a Casa e o Executivo e amplia incertezas sobre o rumo das contas públicas.

Na quarta-feira, o plenário aprovou a criação de aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias, deu aval a aumento do piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas e autorizou a renegociação de dívidas do setor agropecuário. A renegociação do crédito rural, segundo estimativa do Ministério da Fazenda, pode equivaler a cerca de R$ 140 bilhões ao longo de dez anos — um efeito fiscal concentrado que já preocupa a equipe econômica.

A tentativa do ministro da Fazenda, Dario Durigan, de costurar um acordo com Alcolumbre não teve sucesso. O presidente do Senado justificou que vinha sofrendo pressão de parlamentares por pautar os textos e afirmou haver dificuldade de consenso entre governo e Câmara. Em paralelo, a PEC que interessa ao Executivo — a extinção da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas — permanece sem despacho para a CCJ e sem agenda de votação, o que irrita a base governista.

Além do teor técnico das propostas, o caso abre um desafio político para o Planalto: a aprovação de medidas populares em ano pré-eleitoral tende a reduzir resistência nas votações, mas aumenta o custo fiscal e complica a estratégia de responsabilidade fiscal defendida pelo governo. Fontes parlamentares citam desgaste nas relações, agravado pelas disputas em torno da indicação ao STF — com a rejeição do nome apoiado pela Presidência — e pela percepção de que o Senado tem alternado aceleração e segurar de pautas conforme interesses institucionais. O resultado é um ambiente de maior pressão sobre a área econômica e a necessidade de realinhamento político se o governo quiser retomar prioridades nesta legislatura.