O Senado virou o palco das principais disputas políticas entre o governo e o Congresso nas próximas semanas. Em Brasília, a tramitação da PEC que acaba com a escala 6x1 — aprovada pela Câmara há 11 dias — e os desdobramentos da derrota da indicação de Jorge Messias ao STF aparecem como dois fatores que cobram de Davi Alcolumbre uma demonstração de autonomia em relação ao Palácio do Planalto. Aliados do governo interpretam ambos os episódios como ligados pela mesma necessidade do presidente do Senado de marcar sua agenda.

A pauta da semana pode andar a partir da reunião de líderes prevista para terça, quando deverá ser escolhido o relator e definido o rito. Oficialmente, caberá ao presidente da CCJ, Otto Alencar, indicar o nome que vai relatar a matéria; na prática, a decisão será seguida com atenção por governo e oposição como termômetro do ritmo e da direção do debate. Alcolumbre mencionou a intenção de consultar líderes e chegou a abrir a hipótese de criar comissão especial ou enviar o texto a outras comissões, o que provocou reação imediata na base governista.

A resistência do Planalto não é apenas de calendário. Técnicos e parlamentares lembram que o regimento prevê análise de PEC pela CCJ antes do plenário e que, desde 1988, nenhuma emenda constitucional aprovada passou por outra comissão. A possibilidade de um caminho alternativo é vista por governistas como inovação que pode retardar a votação — complicando a meta do Palácio de concluir a tramitação até agosto, para que medidas em potencial tenham impacto no período eleitoral. Empresários, por sua vez, pedem prazo maior e mecanismos de compensação para mitigar custos.

Na prática, a decisão sobre relator e rito terá efeito político imediato: uma tramitação rápida favorece o governo na campanha; um debate ampliado dá a Alcolumbre margem para afirmar independência, mas também empurra o tema para um calendário mais incerto e eleva o custo político da base. A escolha traduzirá se o Senado pretende ser apenas corretor da Câmara ou se vai imprimir um traço próprio à reforma da jornada — com consequências concretas para o calendário e a narrativa governista à medida que se aproxima o período eleitoral.