O Senado promoveu nesta quinta-feira (28) um debate técnico para discutir medidas de prevenção ao El Niño, que especialistas já tratam como excepcionalmente forte para 2026. Presidido pelo senador Esperidião Amin (Progressistas-SC), o encontro teve como tom central a cobrança por medidas concretas: não bastam diagnósticos, afirmou Amin, é preciso transformar propostas em ações práticas para gestores e população.

Do Inpe, o pesquisador José Antônio Aravéquia trouxe números que reforçam a urgência: anomalias de temperatura no Pacífico Equatorial já passaram de 2°C e os modelos dão mais de 90% de probabilidade de manutenção do fenômeno até o fim do ano, com desvios entre 1°C e 3°C acima da média. As projeções indicam temperaturas acima da média no Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste entre junho e agosto, chuvas abaixo do normal em áreas do Norte e Nordeste e volumes acima do esperado no Rio Grande do Sul, no centro do Mato Grosso do Sul e no sul do Amazonas.

Politicamente, o debate expôs contradições do modelo atual de resposta a desastres. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) lembrou as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul e pediu aperfeiçoamento do Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil (Lei 12.608/2012), com simulações anuais obrigatórias e responsabilização de gestores por omissão em fiscalização de áreas de risco. Mourão também defendeu a criação de um Fundo Nacional de Resiliência Climática para garantir recursos permanentes, criticando a prática de liberar verbas apenas após tragédias.

As propostas no Senado — inclusive o PL 3.614/2024, que reconhece emergência climática — colocam em destaque uma necessidade operacional e política: adaptar obras e critérios de financiamento a parâmetros climáticos atualizados. Sem isso, a tendência é manter uma resposta reativa, custosa e incapaz de reduzir a exposição das cidades. Para o governo federal e gestores locais, o recado é claro: há espaço para ajustamento de políticas, mas isso exigirá recursos permanentes, coordenação e rapidez na implementação, sob o risco de ampliar o desgaste político diante de novos eventos extremos.