A reação formal de diplomatas às críticas feitas pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro marca um desconforto público com a tentativa, por parte de nomes próximos ao ex-presidente, de redesenhar o perfil do Ministério das Relações Exteriores. A Associação de Mulheres Diplomatas Brasileiras (AMDB) divulgou nota defendendo políticas de igualdade de gênero e ressaltando que estruturas como a Assessoria de Participação Social e Diversidade (APSD) e a Assessoria Especial para Transversalização de Gênero (AETG) integram o trabalho contemporâneo da diplomacia — que vai além do comércio e da segurança e engloba direitos humanos, cooperação e proteção de brasileiros no exterior.
Embora a AMDB não cite Eduardo nominalmente, a nota responde diretamente a publicações do ex-deputado que qualificaram essas assessorias como gasto público desnecessário e aparelhamento ideológico. Ao enfatizar que o serviço diplomático é instituição de Estado orientada por leis e diretrizes profissionais, a entidade tenta frear uma narrativa que desqualifica servidores com base em suspeitas genéricas. A defesa da pluralidade e da qualificação técnica transmite um recado claro: mudanças por motivações ideológicas enfrentariam resistência interna e desgaste institucional.
O episódio ganha dimensão política porque Eduardo tem atuado com a desenvoltura de quem planeja um papel na política externa — desde encontros com líderes da extrema direita regional até promessas públicas de 'despetização' do MRE. Circulam especulações de que, se o irmão Flávio Bolsonaro vencer a disputa presidencial, Eduardo poderia assumir posto de destaque, como a embaixada em Washington ou assessoria especial para assuntos internacionais. Essa perspectiva expõe contradições: a tentativa de alinhamento ideológico pode reduzir a confiança profissional do corpo diplomático e complicar relações com parceiros acostumados a interlocução técnica e institucional.
Há ainda custo reputacional externo. As ligações com figuras como o presidente argentino Javier Milei e participação em eventos organizados por grupos da direita internacional ampliam o escrutínio sobre a direção que a política externa poderia tomar. Para além das intenções de cargos, a disputa revela um confronto de narrativas — profissionalismo e pluralidade versus projeto de alinhamento ideológico — cujo desfecho terá impacto concreto sobre a capacidade do Brasil de negociar em diversidade de fóruns. A nota da AMDB acende alerta sobre o preço político e institucional de uma intervenção que privilegie lealdades políticas em detrimento da carreira diplomática.