O período de recolhimento adotado por Michelle Bolsonaro após a repercussão do vídeo em que relatou ter sido humilhada por Flávio Bolsonaro não se traduziu em perda imediata de relevância. Ao contrário: interlocutores ouvidos por este jornal avaliam que o distanciamento é, por ora, uma pausa calculada num momento de desgaste público e tensão interna. A movimentação nos bastidores e o apoio explícito de lideranças conservadoras mantêm a ex-primeira-dama no centro das articulações políticas da direita.

O cenário interno do bolsonarismo aparece dividido. Fontes próximas dizem que parte das críticas a Michelle vem de integrantes do próprio campo conservador, e não apenas da oposição, o que expõe fissuras na coesão do grupo. Ainda assim, pesquisas recentes trazem sustentação numérica à percepção de aliados: levantamento Meio/Ideia apontou Michelle como a mulher mais lembrada de poder no país, com 15,4% das menções, à frente de outras figuras públicas. Além disso, parcela significativa do eleitorado considerou verdadeiras as declarações dela sobre o conflito com Flávio, indicador de que a narrativa tem ressonância além das bolhas partidárias.

O apoio público de nomes como a senadora Damares Alves e a posição conciliadora do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, revelam duas frentes de interesse convergentes. Damares tem defendido que a ex-primeira-dama reúne atributos políticos relevantes e trabalha para convencê-la a disputar cargos; no PL, a liderança da sigla descartou substituir Michelle no comando do segmento feminino e chegou a admitir mudanças organizacionais para acomodar seu retorno. Essas manifestações fortalecem a hipótese de que Michelle preserva um capital político que extrapola vínculos partidários e representa uma peça valiosa para a direita em 2026.

O quadro apresenta, contudo, riscos e oportunidades. Para aliados, a situação abre espaço para uma candidatura própria que agregue eleitorado conservador desconectado dos aparatos tradicionais; para o núcleo bolsonarista, a emergência de uma liderança com base pessoal pode acentuar disputas internas e forçar realinhamentos no PL. Em termos práticos, a manutenção da relevância dependerá da capacidade de transformar visibilidade em organização política e de resistir a ataques dentro do próprio campo. O resultado dessas movimentações terá impacto direto na estratégia do bolsonarismo para a próxima eleição e na configuração da direita no país.