A Constituição brasileira consagra a soberania popular — exercício que passa pelo voto direto e secreto. Mas a concretude desse princípio depende da disposição dos eleitores em comparecer às urnas. As pesquisas e as manifestações espontâneas apontam um fenômeno inquietante: entre um quarto e um terço dos brasileiros demonstram pouco ou nenhum interesse nas eleições que decidem renda, segurança, saúde e educação. Quando milhões deixam de votar, uma minoria ativa acaba decidindo rumos que afetarão a maioria.

O quadro fiscal agrava a banalização do ato de escolher representantes. O país carrega hoje uma dívida na casa dos R$ 10 trilhões e paga cerca de R$ 1 trilhão por ano em juros — encargos que comprimem qualquer margem para investimentos e forçam escolhas duras. Quem pretende enfrentar esse quadro com rigor fiscal, cortes e privatizações precisa apresentar, desde já, um plano e uma equipe capazes de negociar com o Congresso e com os governadores. Mesmo medidas bem desenhadas só podem produzir alívio concreto lá na frente — como sinalizado pela projeção de benefício apenas no segundo semestre de 2028.

A lição política é clara: eleger presidente sem escolher bem os senadores e deputados federais é estratégia incompleta. Na prática republicana, o presidente depende da bancada no Parlamento e da cooperação com governadores para aprovar reformas e tocar a agenda. Ignorar a disputa ao Senado e à Câmara é abrir mão de instrumentos cruciais de governabilidade e fiscalização. Além disso, a decisão local — quem representa o eleitor em sua cidade, estado e renda — tem efeito direto sobre serviços públicos e políticas que impactam a vida cotidiana.

Há também dimensão cívica e geracional nesse chamado à urna. Projeções feitas a partir de eleitores aptos mostram que dezenas de milhões podem abdicar de decidir o futuro coletivo; são precisamente os segmentos mais experientes — idosos — e os mais jovens que têm motivos distintos para não se distanciar. A abstenção favorece resultados que não refletem a vontade ampla da sociedade e reduz a pressão por responsabilidade fiscal e eficiência administrativa. Em resumo: somos soberanos e, ao mesmo tempo, mandantes — cabe a cada eleitor transformar esse mandato em escolha consciente e estratégica.